27 março 2010

Psicografado de outro blogue

Olha o q a patroa escreveu:

Sabem o que eu adoro? Esses médiuns que juntam platéia e ficam "estou ouvindo um ême... alguma coisa com ême... alguém aqui tem um ente querido, pode ser tio, pai, avô, filho, sobrinho, cachorro cujo nome começava com ême?". E uma senhora levanta emocionada "meu marido, Manovitch!" E o que ele ouviu foi o ême, não o itch.

HAHAHAHAHA

"Estou ouvindo um bê, um bê..." "Minha avozinha Bócia!" Novamente, não o ó. Mas ele acertou! "Isso, Bócia. Ela está me dizendo que faleceu com algum tipo de dor... uma dor no corpo... eu vejo o peito... talvez o coração, o pulmão..."

HAHAHAHAHAHA

Sabem o que eu adoro mais? Que, enquanto isso, haja outros médiuns que psicografam cartas e livros inteiros sem nenhum problema de fonética espiritual, chuvisco na imagem ou linha cruzada.

HAHAHAHAHAHAHA

E sabem o que eu adoro hors-concours? Que os médiuns do "estou ouvindo um ême" embolsem muito mais dinheiro que os outros com seu talento. Esse tipo de mediunidade paga mil vezes mais por caractere.

HAHAHAHAHAHAHA

Casei com a mulher certa.

23 março 2010

Ironies Inc. / Ironias S.A.

Trecho de Network. Na cena: Peter Finch e Ned Beatty; texto1 de Paddy Chayefsky.



Nosso euribático doutor tem tanta coisa pra se divertir nessa cena q ele nem sabe por onde começar.

Notem:
• a comparativa chinfrinice do português pra expressar idéias fortes em voz estentórea;
• q a estrutura do português tolhe a expressão de crescendos dramáticos de adjetivos em sintagmas nominais;
• q ela tolhe tbm a sucintez de sintagmas nominais só com substantivos;
• como as palavras portuguesas perdem expressividade com o deslocamento do acento tônico da raiz pro sufixo;
• q Network é de 1976; das 7 grandes firmas q o filme achou dignas de menção, só resta a Exxon entre as 10 maiores no mundo, mais a AT&T entre as 10 maiores nos Euá2;
• q agora em 2010 partes desse texto parecem tão ingênuas...; dizer q não existem povos é como dizer q não existe ferro: ambos são matérias-primas pros lucros empresariais; assim como fazem com ferro, as empresas pegam um povo e o derretem, fundem, forjam, moldam, vendem, usam, fadigam e sucateiam;
• q talvez algum dia não haja mais "nações e povos" no sentido usado aí, mas sempre haverá línguas;
• a leis intrínsecas (bylaws) q regem o comércio podem mudar duma hora pra outra, mas as leis q regem a cognição lingüística levam milhões de anos pra mudar.

Se vc quer vida longa pro português, mude-o: acÊntue as rÁizes, invEnte palAvras, sÍmplize a grÁmatica. Se não, já viu, né? Aliás, tá vendo.

Claro q é melhor deixar tudo como tá. O Dr Plausível não é bobo de se meter com gente armada.

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(1) Claro q sei q 'meddle with' não é 'se meter com'; e q 'price/cost' não é 'custo/benefício'; e outros detalhezinhos. Faço minhas traduções perguntando: "¿Como seria esse texto se tivesse sido originalmente escrito em português?"

(2)Entre as 100 maiores do mundo: Exxon (2ª), AT&T (29ª), IBM (45ª),
Entre as 100 maiores dos Euá: Exxon (1ª), AT&T (8ª), IBM (15ª), Dow (39ª), DuPont (77ª).
(Fonte.)

16 março 2010

Promoção de papelões

Tem dias em q nosso ebúrneo doutor já acorda dando risada. É verdade q esse fenômeno é facilitado por ele só acordar às 10 da manhã, qdo já se fez muita besteira no mundo. Mas mesmo assim, né, ¡10 da manhã...! O pessoal podia esperar até a tarde.

Desta vez foi pq uma conhecida ligou contando q é assinante do Estado e hoje entregaram o jornal dentro dum saco plástico junto com a edição da Folha, q ela não assina, numa promoção do Banco Santander. E o vizinho, q assina a Folha, recebeu tbm o Estado. O saco dizia:

"TOMAR DECISÕES LEVANDO EM CONTA MAIS PONTOS DE VISTA."

Ããã... supostamente querendo dizer q se vc lê esses dois jornais, vc pode tomar decisões mais abalizadas.

É mesmo, né, o Estado e a Folha são jornais SUPER diferentes. Nada a ver um com o outro.

HAHAHAHAHAHA

Se era pra ter pontos de vista diferentes, ¿por que não colocaram junto com a Folha o Libération ou o Guardian? Claro q não. Não pensaram nem n'El País, q é espanhol como o Santander.

Aliás, pô, se é pra tomar decisões levando em conta mais pontos de vista, então essa propaganda deveria promover tbm, sei lá, o BMG, o Banco Fibra ou o Banco Daycoval, né?

Leve em conta mais pontos de vista. Pergunte a um diretor do Itaú o q ele acha do Santander.

Hoje, aumentou consideravelmente o volume de lixo na cidade.

Cada uma, viu.

11 março 2010

Assunto intratável, proposta utópica, texto chato

Nosso enfático doutor não se mete na vida dos outros e tá longe de aconselhar qqer um a não ler traduções. Mas... tampouco se priva de aventar q a dependência brasileira de traduções é quase como uma placa de Petri prà disseminação do hipoplausivírus no populacho. Ser diariamente bombardeado por non-sequiturs, inconsistências, ilogicidades e birutices em filmes, livros, jornais e revistas não deve ser a melhor maneira de desenvolver o intelecto. Dá dó ver qta burraldice é enfiada na cachola do brasileiro médio q tá ali inocentemente tentando se divertir, se culturar ou se informar.

A idéia (proposta no texto anterior) de comitês produzindo traduções oficiais dos clássicos literários, respaldadas pelo Estado, jamais vingará, claro. Qdo muito, uma ou outra editora há de entender q suas traduções deveriam funcionar como funcionam artigos em revistas científicas: um cientista ou uma equipe de cientistas envia um artigo a uma revista e esta – q não é trouxa de publicar qqer coisa – envia o artigo pra ser revisado confidencialmente por vários outros cientistas; estes propõem mudanças ou até reprovam o artigo completamente, e ele só é publicado com o aval de todos.

Mas além dos grandes clássicos, há outro campo infestado de traduções deficientes – um campo q bem poderia oficializar suas traduções: os filmes. Do jeito q tá, é um caos. O filme passa nos cinemas com legendas. Aí uma emissora de tv aberta decide transmiti-lo e encomenda uma tradução pra dublagem. Meses depois, algum canal a cabo decide o mesmo e encomenda uma tradução pra legendagem. Aí outra emissora aberta quer passar o filme e encomenda mais uma legendagem. Aí ele é (ou era) lançado em vídeo e mais uma legendagem é feita. Aí é lançado em dvd, e mais uma. Aí aparece uma edição especial do filme com mais outra.

E cada nova legendagem ou dublagem tem sua própria plantação de abobrinhas.

Pensem no estúdio ou diretor ou produtor dum filme. Ele arregimenta centenas e centenas dos melhores profissionais diretos ou indiretos pra cuidar dos cenários, figurinos, equipamentos, maquiagem, sotaques, trilha sonora, efeitos especiais, &c &c &c, durante meses a fio, pra fazer um filme todo bonitinho; aí manda o filme pro Brasil e ele é traduzido numa semana por UM tradutor mal pago e metido a sabido, qdo muito tbm UM revisor pior pago, e os dois juntos se entregam a passar apenas a idéia principal dos diálogos, espatifando no caminho trocentos outros detalhes q vários profissionais antes deles se esmeraram pra deixar verossímil, q os atores deram o melhor de si pra enunciar convincentemente, q os técnicos de áudio fizeram faculdade pra gravar claramente. Claro q há tradutores excelentes; eu mesmo conheço dois tradutores absolutamente geniais (e q "coincidentemente" não se entregam às imbecilidades da NoCu; mas isso é outra história). Todos sabemos q são raros, tal como era raro achar água limpa 200 anos atrás. Num país culturalmente de joelhos como este, a qualidade da tradução deveria ser vigiada e regulamentada como questão de saúde mental pública.

E se vc fosse o produtor, ¿não iria querer controlar tbm as traduções? Todo lançamento de filme no Brasil – exatamente como faz a Microsoft com a tradução de seus programas – deveria ter a tradução afiançada pelo produtor original, bem paga por ele, com dublagem e legendagem feitas pela mesma equipe, sujeitas a melhorias futuras, e com a proibição de exibição com qqer outra tradução. O filme e sua tradução deveriam formar um pacote único.

¿Será q nosso exímio humanista tá exagerando? Acho q não. Agora vem a parte chata deste texto.

ESTUDO DE CASO:
Um bom exemplo do pobrema é My Fair Lady, baseado na peça Pygmalion, de G.B.Shaw. Uma das peças mais originais dum gênio teatral inglês foi musicada por dois gênios da Broadway; o musical foi transformado em filme por um grande diretor num dos maiores estúdios de Hollywood com um elenco de primeira; a produção custou 17 milhões de dólares e tomou 8-9 meses de intenso trabalho; ganhou 8 Oscars. No Brasil, virou quase uma rotina despedaçar o texto e seus inúmeros detalhes. Dentre umas dez ou mais traduções diferentes dessa peça ou filme, analisemos uma tradução de Pygmalion e quatro legendagens diferentes de My Fair Lady. Veja os códigos q vou usar:

MF: Tradução da peça, publicada em livro. A capa diz "Tradução de Millôr Fernandes". A contracapa faz esta hilariante declaração: "Neste livro Millôr Fernandes faz muito mais do que uma tradução. Enfrentando a enorme complexidade da obra de Shaw, Millôr adapta e recria, conseguindo a proeza de transmitir na íntegra o sabor e a genialidade do texto original." Sim, conseguiu a proeza de adaptar e recriar tudo aquilo no original cuja complexidade não entendeu. HAHAHAHA Excelente humorista, sofrível tradutor.
VID: Tradução pro videocassete.
TCN: Tradução pro Telecine, da tv a cabo.
DVD1: A primeira tradução pra dvd.
DVD2: A edição atual do dvd. A melhor tradução até agora. O tradutor, embora um pouquinho duro nas juntas, é inteligente e lúcido, e tem um amplo repertório em português. Mas MESMO assim não entendeu várias coisas no original.

Seguem-se APENAS os pontos mais baixos dessas traduções. É uma pequena amostra do problema – não só pq inclue apenas uns 30 minutos dum filme de 2½ horas, como tbm pq inclue apenas os erros mais sérios, exceto os da versão DVD2, da qual resolvi incluir *todos* os erros. Dou:

o original em fonte normal
a tradução com o problema em negrito
uma correção/sugestão minha em itálico
(uma breve explicação entre parênteses)

Omiti as inúmeras gargalhadas do doutor.

(prefácio) The English have no respect for their language, and will not teach their children to speak it.
MF: Os ingleses não respeitam sua língua, e não sou eu quem vou ensiná-la a seus filhos.
...e não ensinam seus filhos a falá-la.
(¿Que catso tava pensando o tradutor qdo se saiu com essa? ¿Que tem a ver com G.B.Shaw?)

(prefácio) ...he was squeezed into something called a Readership of phonetics there.
MF: ...ele acabou sendo lá espremido para uma coisa chamada leitura de fonética.
cadeira/curso de fonética
(Aqui o livro deveria ter incluído uma nota de rodapé, explicando o q é um 'readership' numa universidade britânica; um 'reader' é tipo um 'professor adjunto'.)

(prefácio) ...his pupils ...swore by him; but nothing could bring the man himself into any sort of compliance with the university...
MF: ...todos absolutamente dedicados a ele; mas nada podia fazer com que o homem em si se comprometesse em qualquer grau com a universidade...
...nada conseguiu fazer com q ele próprio aceitasse as regras e costumes da universidade...
(A questão posta é q Henry Sweet era indomável, não q era inconfiável.)

Mãe: What can Freddy be doing all this time? He's been gone twenty minutes.
Filha: Not so long. But he ought to have got us a cab by this.
MF: -Onde é que Freddy se meteu esse tempo todo? Saiu daqui há mais de meia hora.
-Que é isso? Não tem nem dez minutos. Está arranjando o táxi.
- (...) Saiu daqui já faz vinte minutos.
-Nem tanto. Mas já deveria ter arranjado um táxi.

(A mãe já sabe q Freddy foi buscar um táxi; não faz sentido a filha informá-la disso.)

(instrução de cena) He is a young man of twenty ... very wet around the ankles.
MF: É um rapaz de vinte anos, já com acentuada gordura na cintura.
...com a barra da calça toda molhada.
(A primeira cena se passa durante uma chuvarada, e a instrução diz como o personagem deve subir ao palco.)

Pickering: I'm afraid not. It is worse than before.
VID: Acho que não, está pior que no outono.
...está pior do q antes.
(O tradutor tirou o texto de ouvido, e entendeu "than in the Fall".)

Liza: I can change half-a-crown. Take this for tuppence.
DVD2: Eu troco meia coroa pro senhor. Leva essa, só dois centavo.
...Leva esta por dois pence.
(A tradução ignorou o sistema monetário britânico da época. Essa é uma mania relativamente recente de tradutor: fazer a conversão monetária.)

Liza: I'm a respectable girl, so help me.
DVD1: Eu sou uma garota de respeito, ajude-me.
...meu Deus.
("So help me" é uma contração de "so help me God" ou "swelp me God": valha-me Deus.)

Homem: You be careful: give him a flower for it.
DVD2: É melhor tomar cuidado ou até mesmo lhe dar uma flor.
Cuidado: entrega um flor pra ele.

Liza: Oh, sir, don't let him charge me, you dunno what it means to me.
TCN: Não façam queixa! Sabem o q acontece.
Seu moço, não deixa ele me autuar. É muito importante pra mim.
(O 'it' em "what it means to me" se refere a sua liberdade de vender flores. Em português, fica infra-subentendido.)

Liza: They'll take away me character and drive me on the streets for speaking to gentlemen.
VID: Não fiz nada, falem com o cavalheiro.
DVD2: Vão manchar minha honra e me largar na rua só por falar com cavalheiros.
Vão me tirar minhas referências e me obrigar a mendigar, só por ter falado com gente fina.
(Um 'character' era mais ou menos o q no Brasil se chama de 'referências', só q oficial, e permitia aos pobres trabalharem na rua sem risco de serem presos por vadiagem.)

Homem: It's all right: he's a gentleman: look at his boots.
MF: Ele quer te ajudar, ouve ele. É um doutor, não tá vendo? Olha só as bota dele.
Não tem problema. Ele é um grão-fino.
(Higgins não quer ajudar ninguém, nunca. E sim, eu sei a NoCu diz q é 'grã-fino'; mas o personagem não saberia.)

Liza: On my Bible oath, I never spoke a word.
VID: Não sou imbecil, não disse nada.
DVD2: Garanto, nunca falei nada de mau.
Juro por Deus q eu não disse nada de mais.
(Todo mundo acha q 'never' quer dizer 'nunca'; na verdade, quer dizer 'em nenhum momento'. "I never saw him yesterday." quer dizer "Não o vi em nenhum momento ontem.")

Homem: Blimey, he's a blooming busybody.
VID: Credo, isso daria um negócio e tanto.
Credo, esse cara é um enxerido da peste.

Liza: Let him say what he likes. I don't want to have no truck with him.
MF: Deixa ele falar o que bem quiser – eu não quero é encrenca.
Não quero nem saber desse cara.

Pic: May I ask, sir, do you do this for your living at a music hall?
Higgins: I've thought of that. Perhaps I shall some day.
MF: Sabe que eu nunca pensei nisso? Mas não é uma má idéia.
Já pensei nisso. Talvez faça, um dia.
(Senso de humor, please.)

Pic: Is there a living in that?
Hig: Oh, yes. Quite a fat one.
DVD: -Serve para alguma coisa?
-Sim.
-Dá pra viver disso?
-Ah, sim. Fartamente.

(Esse é exatamente um dos pontos q G.B.Shaw tava frisando nessa peça.)

Hig: Woman! Cease this detestable boohooing instantly; or else seek the shelter of some other place of worship.
MF: Ô mulher, pára com essa choradeira estúpida, pelo amor de Deus! Ou então vai chorar noutro abrigo, noutro altar, noutro diabo que te carregue.
Mulher, pare com essa choradeira insuportável agora mesmo, ou então vá buscar abrigo em outro templo.
(A cena inicial se passa no pórtico da igreja de São Paulo, em Londres, durante uma chuvarada.)

Hig: Remember that you're a human being with ... the divine gift of articulate speech.
TCN: Lembre-se de q é um ser humano com ... o dom divino da palavra bem pronunciada.
...o dom divino da fala.

Hig: ...don't sit there crooning like a bilious pigeon.
MF: ...não fica grunhindo como um porco que acabaram de castrar.
VID: Não arrulhe como um pombo da Bíblia.
...não fique aí resmungando tal como uma pomba irritada.

Hig: I could pass you off as the Queen of Sheba.
DVD: Faria você passar pela rainha de Sheba.
DVD2: Poderia fazer com que a tomassem pela rainha de Sheba.
Eu conseguiria fazer vc parecer a rainha de Sabá.

Liza: You ought to be stuffed with nails, you ought! Take the whole blooming basket for sixpence.
MF: U sinhô dirvia sê rechiado de chumbu dirritido. (...)
DVD1:Você deve ter um coração de pedra, deve sim! (...)
DVD2: (...) Leva a porcaria da cesta por seis centavos!
Seu mão-de-vaca, pão-duro, unha-de-fome! Leva a cesta inteira por seis pence.
(Liza tá acusando Higgins de sovinice; mas a frase dela é farsesca e exagerada.)

Homem: The missus wants to open up the castle in Capri.
DVD2: A senhorita quer construir um castelo, em Capri.
A madame quer passar o inverno em seu castelo em Capri.
(A madame supostamente já teria o castelo. Durante o resto do ano, ele ficaria desocupado e fechado.)

Liza: Lots of coal making lots of heat.
DVD2: Montes de carvão no fogão
Montes de carvão pra me aquecer.
(Nada a ver com cozinha.)

Liza: I would never budge till spring crept over me window-sill.
TCN: Eu não me mexeria até a primavera, debruçada no parapeito da janela.
DVD2: Sem nem um dedo mexer até a primavera, pendurada na janela.
Eu não me mexeria até a primavera entrar pela janela.
(Liza tá se imaginando confortavelmente instalada numa poltrona durante o inverno.)

Pic: Must I? I'm quite done up for one morning.
DVD2: Será preciso? Acho que estou bastante confuso para uma só manhã.
Preciso mesmo? Já tou muito cansado / Já foi demais pra uma manhã.

Hig: Oh, that's all right, Mrs. Pearce. Has she an interesting accent?
Mrs Pearce: Oh, something dreadful, sir, really. I don't know how you can take an interest in it.
MF: -Oh, está tudo bem, madame Pearce. É engraçada, a pronúncia dela?
-Uma coisa verdadeiramente horrorosa, para o meu ouvido. O que significa que o senhor vai achar maravilhoso.
Uma coisa pavorosa. Mesmo. Não sei como o sr. pode se interessar por essas coisas.
(Ninguém chamaria a própria empregada/governanta de 'madame'. Além disso, MF entendeu Dª. Pearce exatamente errado.)

MsP: I should've sent her away, only I thought perhaps you wanted her to talk into your machines.
VID: Deveria tê-la mandado embora (...)
TCN: Devia tê-la despachado (...)
DVD1: Eu devia tê-la mandado embora (...)
DVD2: Deveria tê-la dispensado, mas pensei que, talvez o senhor quisesse fazê-la falar na sua máquina.
Eu a teria mandado embora (...)
(A rigor, shall/should é a 1ª pessoa de will/would; a linguagem de Dª. Pearce é super formal, e ela fala ãã... "corretamente".)

Hig: ...and then we'll get her on the phonograph so that we can turn her on whenever we want.
VID: ...e, depois, para o fonógrafo para poder transformá-la no que quiser.
...ligá-la qdo quisermos.

Liza: Oh, we are proud. Well, he ain't above giving lessons, not him. I heard him say so.
DVD1: Estamos orgulhosos. Bem, ele pode ensinar. Eu ouvi ele dizer isso.
Oh, que nariz empinado. Mas ele não é tão fino q não possa dar aulas. Ele mesmo disse.

Hig: Should we ask this baggage to sit down?
Liza: I won't be called a baggage when I've offered to pay like any lady.
MF: Num mi chama di troxa, não. Eu num qüero. Eu poussu pargá como quarqué madama.
¿Por que me chama de mala se tou querendo pagar q nem qqer madame?
(A entonação meio chorosa de Liza ao dizer isso aceita a transformação pruma pergunta.)

Liza: I thought you'd come off it for a chance of getting back a bit of what you chucked at me last night. You'd had a drop in, hadn't you, eh?
VID: (...) Está interessado, não?
TCN: (...) Q golpe de sorte, não?
DVD1: Pensei que você não me daria a chance de lhe devolver um pouco do que você atirou em mim, ontem. Agora eu te peguei, hein?
DVD2: (...) Já ficou mais interessado, hein?
Eu sabia q vc ia deixar de manha pra tentar reaver um pouco do dinheiro q me deu ontem. Vc tava meio mamado, ¿não tava?

Hig: [peremptorily] Sit down.
Liza: If you're going to make a compliment of it...
VID: Esqueceu de me cumprimentar.
Se vc fosse mais educado...
(Liza tá sendo um pouco sarcástica aí.)

Liza: A lady friend of mine gets French lessons for eighteenpence an hour from a real French gentleman.
DVD2: Uma amiga minha faz aula de francês e paga 18 centavos por hora para um francês de verdade.
Uma amiga minha tem aula de francês com um francês legítimo e paga só 18 pence a hora.
(A estrutura do original é "gets lessons from somebody", mas o tradutor estruturou como "paga dinheiro pra alguém", criando uma confusão entre 'francês' a língua e 'francês' o professor.)

Hig: Remember: that's your handkerchief; and that's your sleeve. Don't mistake the one for the other if you wish to become a lady in a shop.
MsP: It's no use talking to her like that, Mr. Higgins: she doesn't understand you. Besides, you're quite wrong: she doesn't do it that way at all.
MF: Além disso, o senhor está completamente enganado: ela sabe usar um lenço muito bem.
Além disso, o sr. errou aí: não é assim q ela assoa o nariz.
(Dª. Pearce quer dizer q Liza não limpa o nariz na manga: ela assoa o nariz com o dedo, espirrando a meleca no chão.)

Pic: You're certainly not going to turn her head with flattery, Higgins.
MsP: Oh, don't say that, sir: there's more ways than one of turning a girl's head; and nobody can do it better than Mr. Higgins, though he may not always mean it.
MF: -Acho que com essa espécie de lisonjas, você não vai mudar o comportamento dela, Higgins.
-Não aposte nisso, coronel. Ninguém sabe ser mais lisonjeiro do que o professor, mesmo quando faz tudo ao contrário.
-A moça certamente não vai ficar fascinada com tuas lisonjas.
- (...) Há muitas maneiras diferentes de fascinar uma moça; e ninguém consegue fazer isso melhor do q o sr. Higgins, embora nem sempre seja essa sua intenção.

(Dª. Pearce quer dizer q Liza corre perigo de se apaixonar por Higgins, até com ele tratando-a mal.)

Hig: What is life but a series of inspired follies?
MF: Que é a vida senão uma tentativa de organizar a loucura?
¿Que é a vida senão uma série de loucuras inspiradas?
(Aqui, foi Higgins q MF entendeu exatamente errado.)

Pic: What about your boast that you could pass her off as a duchess at the Embassy ball?
DVD2: O que me diz de sua aposta, de que poderia fazê-la passar por duquesa no baile da embaixada?
...bravata...
(A aposta não surgiu ainda; e quem faz é Pickering, não Higgins.)

Hig: We want none of your slum prudery here, young woman.
DVD1: Não queremos aqui o seu palavreado miserável, mocinha.
...puritanismo de favela...

Hig: What's the matter?
MsP: Well, the matter is, sir, that you can't take a girl up like that as if you were picking up a pebble on the beach.
MF: -O que foi que eu fiz?
-Bom, professor, acho que não se deve tratar uma moça sensível como essa como quem chuta uma bola de papel na rua.
-Qual é o problema?
-O problema é q não se pode catar um moça assim, como se ela fosse uma pedrinha na rua.

("Uma pedrinha na praia" seria entendido diferentemente no Brasil; é sabido q as praias inglesas têm mais pedrinhas do q areia.)

MsP: And what is to become of her when you've finished your teaching? You must look ahead a little.
Hig: What's to become of her if I leave her in the gutter? Tell me that, Mrs. Pearce.
MsP: That's her own business, not yours, Mr. Higgins.
Hig: Well, when I've done with her, we can throw her back into the gutter; and then it will be her own business again; so that's all right.
MF: -E quando o senhor terminar o curso, o que será feito dela? Acho que devemos prever isso.
-A senhora já previu o que vai acontecer com ela se eu a deixar na sarjeta? Me diga, madame Pearce.
-Isso não é responsabilidade sua, me parece.
-Bem, quando terminarmos as lições só temos uma coisa a fazer: jogá-la de volta na sarjeta. Também não será responsabilidade minha, me parece.
• (...) -O sr. precisa pensar no futuro.
(...)
-Isso é problema dela, não seu, sr. Higgins.
-Bom, qdo eu terminar com ela, podemos jogá-la de volta à sarjeta, e aí será problema dela novamente; então dá na mesma.


Hig: ...do any of us understand what we are doing? If we did, would we ever do it?
Pic: Very clever, Higgins; but not sound sense.
MF: Muito interessante, Higgins, mas não no presente momento.
Muito esperto, Higgins; mas não muito sensato.

Liza: I won't let nobody wallop me.
VID: Não deixarei ninguém me embrulhar.
Não vou deixar ninguém me surrar.
(Liza jamais diria "não deixarei".)

Ok. Vamos parar por aqui. Tem mais duas horas de filme. Triste, não?

05 março 2010

As plagas do plágio

Sesdias, nosso eremófilo filantropo desempapuçou um buncho rindo qdo leu do causo do editor e da blogueira.

aiaiai

Primeiro, o editor em pauta copiou quase verbatim uma tradução já existente e publicou como sua – e nem nisso foi original, já q plagiar traduções fora de catálogo é prática comum nestas plagas tãão criativas. ¿Pra quê falsificar dinheiro se é tão mais fácil falsificar o suor da testa, né? São só umas letrinhas: em vez de "tradução de Sicrano Silva", põe aí "tradução de Beltranus Bunda".

aiaiaiai

A atenta blogueira – q há anos denuncia plágios de traduções – demonstrou mais essa trapaça, como mera rotina. As editoras plagiam traduções, as livrarias desinformadas vendem, os leitores insuspeitantes compram, a blogueira lista mais uma falcatrua, e a vida continua.

Mas não subestimemos o hipoplausivírus. O mesmo vírus q fez aquele editor não achar nada de errado numa tradução sofrível, nem nada de errado em plagiá-la, tbm fez o editor... aiaiaiai... ¡¡processar a blogueira q o havia denunciado!!

HAHAHAHAHAHAHA

O Instituto de Plausibilática de Tallinn acaba de conceder à blogueira o Prêmio Plausível – 10 mil kudos e um linque neste blogue – por seu denodo e pertinácia em diagnosticar focos de hipoplausibilose patife.

Mas...
(lá vem bomba)
...nosso expandinte doutor tem olhos na nuca, e sua visão panorâmica já ganhou vários festivais. O buraco é mais abaixo. O doutor tá cada vez mais afeito à idéia de q cada obra estrangeira – livro, filme, o escambau – deveria ter apenas UMA tradução brasileira, oficialmente reconhecida pelo Estado e talvez periodicamente melhorada. ¿O original de La Divina Commedia não é apenas UMA obra, imutável em sua língua natal, escrita por um gênio literário? ¿Por que é q o público leitor brasileiro tem q ser atacado por várias versões, com chumbreguice variando de 0 a 10? Se ninguém pode alterar o texto original do Don Quijote, ¿por que temos várias versões em português, com diversos níveis de entendimento? Se Hamlet é produto dum cérebro reconhecidamente genial, ¿por que se contentar com o produto dum único tradutor nem tanto, amiúde muito pelo contrário? Se tanto brasileiro com talento literário prefere ou é obrigado a não ter produção própria, se o Brasil tá soterrado sob a avalanche de produções estrangeiras, esperando q num futuro hipotético as plantinhas brazucas subam à superfície e vejam a luz do dia ¿por que não fazer traduções colaborativas, de modo q A peça Tartuffe seja no Brasil A peça Tartufo e fim de papo? ¿Pra que ficar punhetando sobre as várias possibilidades da tradução? Catso, se o próprio Molière tivesse começado a escrever a peça um mês antes ou depois, ela teria ficado diferente. ¿Por que não fazer UMA tradução oficial, e bola pra frente?

Essa idéia parece tonta, né? Mas decheu fazer mais perguntas. ¿Que fariam as editoras brasileiras se não houvesse tanto material pra traduzir e plagiar? ¿Que fariam com tanto papel disponível nas matas brasileiras?

A enormidade do volume de traduções diferentes da mesma obra e de plágios de traduções é mais um sintoma do q uma doença. Mostra q muitas editoras simplesmente DESISTEM de produzir idéias novas; mostra q muitos textos estrangeiros já vêm com pedigree presumido, q desbanca por default boa parte da produção brasileira possível; mostra q – e esta é a principal questão aqui, sobre a qual o diagnóstico do Dr Plausível repousa – mostra q dezenas de milhões de brasileiros ficam diariamente à mercê das falhas e lapsos de tradutores individuais, em vez de se exporem à inteligência e coerência dos originais (por algum motivo os originais dão azo a traduções, não?).

A imutabilidade dos originais não é apenas textual. Tbm é imutável o histórico de sua influência. Shakespeare, Cervantes, Moliére, Goethe &c &c &c &c &c são eles mesmos monolitos imutáveis, pilares da cultura universal. ¿Por que então a areia movediça das traduções, a loteria da competência? A Academia Brasileira de Letras deveria, pra variar, fazer algo q prestasse e patrocinar comitês de traduções oficiais – ou imutáveis ou periodicamente melhoráveis – pra trazer ao público brasileiro a inteligência e a arte dos figurões reduzindo ao mínimo os descuidos e gafes aleatórias de tradutores individuais. É o reconhecimento de q, se os gênios do passado são imutáveis e aguçam a inteligência e a sensibilidade da cultura, então o povo brasileiro deve ser exposto à melhor versão de sua influência. Assim talvez se incentivasse o brasileiro a tentar algo mais do q copiar, traduzir e plagiar.

Desnecessário dizer q as traduções oficiais acabariam com os plágios automaticamente.

Mas... ¿a expectativa de q algo assim venha a acontecer algum dia, no Brasil ou em qqer outro país? Nenhuma. Tou aqui só tagarelando.

02 março 2010

A.C.Grayling

Se vc tem a sorte de entender inglês, procure no YouTube qqer coisa ou tudo com esse cara, cujo mais destacado título é um diploma Honoris Causa pelo Instituto de Plausibilática de Tallinn, além de outras quinquilharias de algumas universidades inglesas. O exterior de seu crânio leva uma tatuagem com o Selo de Imunidade Dr Plausível.

01 março 2010

Abaixa aqui

Já faz anos q a padaria da esquina é o único lugar em q nosso esplendente doutor vê uns minutos de tv, qdo vai comprar pão. Vodzeumacoisaprocês, viu: olha... Gente nostálgica é sempre enfadonha. Mas é 19 vezes menos enfadonha do q gente moderninha, essa espécie q não consegue ficar em silêncio, não concebe ter uma padaria onde as pessoas fiquem olhando os pães, tortas e guloseimas. Agora a moda é colocar, ao lado dos pães, uma tela onde fica passando propaganda. ¿Já viram a excrescência? Aí tava lá nosso exímio humanista, olhou pra tela de remelas mentais e...

Passou um anúncio dum tal de MiniBis – q é um copo com uns chocolatinhos dentro. O sujeito tá em pé no metrô, abre um copo de MiniBis, pega um, enfia na boca, a luz no vagão pisca, aí volta, e o cara tá segurando um lindo abacaxi. Supostamente, algum outro passageiro roubou seu doce e colocou no lugar a fruta. O eslôgã: "Desconfie de todos."

Veja o filminho:



Aiaiai.

Isso q dá ignorar as lições, os tratamentos, a extensa farmacopéia contra o hipoplausivírus. Pq, vejam bem, o anúncio tá quase dizendo q o MiniBis equivale figurativamente a um abacaxi.

HAHAHAHAHAHA

Alguns dirão q não – q esse é justamente o ponto do anúncio: q o MiniBis NÃO é um abacaxi. Mas além do sentido figurado, o abacaxi tem um sentido concreto: e, ¿quem é q prefere um copo de MiniBis com 150g de química a um saudável e suculento abacaxi de meio quilo? ¿Será o mesmo pessoal moderninho?

E aí vem o coup de grâce: "Desconfie de todos."

Ah, legal, falou, jóia, viu?

HAHAHAHAHAHA

¿Será q o publicitário q se saiu com essa conseguiria achar uma mensagem menos cretina, menos paranóica, menos egoísta, menos doente, menos moderninha?