14 dezembro 2010

Os brasilários

Ói, vodzeumacoipcêis, viu. Após quatro longos meses de árduo trabalho de campo na Grã-Bretanha, nosso evocante doutor já entrou rindo de volta ao Brasil. É só passar um tempinho na Zoropa, q ele já fica mal-acostumado. Dormia num bairro silencioso, ninguém lhe enchia o saco, não enchia o saco de ninguém, &c &c... A lista é grande. Mas em 5 minutos de Brasil, já caiu na gargalhada. ¿Não é hilariante? O Brasil é um país muito engraçado.

Vou contar-lhes o q sucedeu.

Chegado em Cumbica, e terminada a longa espera na fila do controle alfandegário (aquela em q ninguém tem nada à declarar), o doutor foi liberado e entrou no saguão principal do aeroporto. Tava com sede e arresolveu comprar uma garrafinha de água mineral. Viu duas lanchonetes com curtas filas ao caixa. Pegou a menor.

• Nem bem perfilou-se, notou q o primeiro freguês da fila tava numa briguinha com a moça do caixa:

Caixa: Mas não vai dar pra trocar, moço.
Freguês: Vc é obrigada a ter troco.
C: Äs vezes acontece. ¿Não quer levar outra coisa pra inteirar?
F: Não quero comprar outra coisa. ¿Por que não me dá um desconto?
C: Não quero dar desconto.

Hm... O doutor já viu q isso ia longe, então foi até a outra fila.

• Nessa outra lanchonete, havia duas moças de caixa: uma fechando seu caixa e a outra atendendo no outro. As duas trocando idéias e a fila andando. Aí um sujeito duas pessoas atrás do doutor, pensando q os dois caixas tavam abertos, fez voz pseudo-peremptória e reclamou alto:

Sujeito: Vamo trabalhar aê, ô. Olha a preguiça. Ficam aí batendo cabeça. (resmunga) Gente incompetente.

O doutor já pensaaando...

• Mais um freguês atendido, e então uma senhora q já tava comendo um lanche numa das mesas se levantou, foi até o caixa e pediu alguma coisa – na certa um adendo à sua refeição.

Caixa: Aguarda um pouquinho, por gentileza. Tem essa fila aí.
Senhora: Mas já aguardei taaanto hoje, moça. Passei a manhã aguardando na alfândega.

Foi aí q o Dr Plausível desatou sua gargalhada.

Pô. 5 minutos no Brasil – ¡CINCO MINUTOS! – e ele já presenciou:

• duas pessoas querendo tirar vantagem uma da outra durante um problema;
• um sujeito metido criando caso e desrespeitando trabalhadores;
• uma senhora descaradamente se arrogando prerrogativas especiais.

HAHAHAHAHAHAHA

Dor de barriga.

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Sim, claro, a vida na Inglaterra tem vários defeitos. Mas pô, né? Cinco minutos...

25 novembro 2010

A gaussocracia

No mundo de hoje, com tanto dinheiro gasto em marketing e exércitos pra promover a democracia, é difícil pacas achar uma única pessoa q não, dalgum modo, "acredite" nos ideais democráticos. Nem sequer nosso eláfrio doutor deixa de entusiàsticamente defender a dita cuja; e de fato o faz, e com o mesmíssimo entusiasmo q aconselharia subnutridos à ingerir ovos podres num deserto faminto. Aliás, não faltam receitas com ovo podre —na culinária chinesa, por exemplo; pode checar, clica aí:


Mas mesmo apoiando a barrigudinha, o doutor não acredita em democracia; e vc tampouco; nem teu vizinho, nem teu chefe, nem teu governador. Na verdade verdadeira, absolutamente NINGUÉM em lugar algum do mundo acredita em democracia. Vc mesmo pode confirmar o doutoral diagnóstico. Pegue um amigo teu q alardeia uma inabalável crença nesse sistema (uuââââ... ronc-ronc) "em q o povo exerce a soberania". Pergunte ao despistado democrata o q ele faria se num plebiscito 70% da população decidisse q, sei lá, toda e qqr infração de trânsito fosse punida com um tiro na testa do infrator, após um julgamento sumário ali mesmo na rua pelo guarda, q receberia comissão por cada execução; e alguns meses depois em assembléia constituída 80% dos deputados eleitos decidissem q toda criança de 11 anos devesse compulsòriamente passar um ano inteiro internada numa instituição onde seria iniciada em todas as práticas sexuais possíveis; e no ano seguinte um novo plebiscito decidisse q à partir dos 60 todo cidadão devesse ter um membro amputado e triturado à cada 5 anos pra fazer ração de gato, tornando-se aos 75 um inválido sem braços e pernas.

Mas ¡que exagero, não? ¿Que é q deu no doutor pra imaginar absurdos assim?

HAHAHAHAHAHA

Pois é. São absurdos, mas absurdos possíveis. Pra q se tornem realidade numa democracia, basta q sejam votados pela maioria; nada mais simples.

Então. ¿Quê diria teu amigo se essas leis fossem de fato aprovadas pelo voto? Melhor: ¿quê FARIA? ¿Mudaria de país? ¿Entraria na política? ¿Criaria uma milícia subversiva? ¿Viraria terrorista? Ou talvez ele apenas continuasse sua vida, reclamando do governo e do vizinho, tal como já faz... A questão é q aquelas leis horrendas, apesar de possíveis, são improváveis. Por serem improváveis, ninguém com um mínimo de senso comum acredita q a sociedade possa virar uma aberração cataclísmica dessa envergadura.

Portanto, no fundo não é em democracia q teu amigo acredita; ie, ele não acredita q a vontade da maioria é soberana, qqer q seja. Ele acredita é na curva de Gauss:

Ao plotar estatísticas de fenômenos naturais, sociais, culturais, físicos, biológicos &c &c &c, pouquizíssimos aspectos não resultam numa curva de Gauss. Quase tudo q acontece no universo tá lá no centrão do q teòricamente é possível acontecer. O universo tem uma regularidade e uma inércia —uma estabilidade fundamental— em torno da qual acontece a variabilidade. Essa estabilidade média central é äs vezes difícil de discernir, mas ela tá ali sempre.

Qdo aplicada ä política, a curva de Gauss pode ser visualizada assim: isole uma gama de opiniões sobre um assunto; disponha-as à grosso modo numa linha horizontal, indo da mais radical prum lado até a mais radical pro outro; conte qtas pessoas têm cada opinião variante; o resultado sempre será mais ou menos a curva de Gauss acima. Vejamos, por exemplo, uma gama de opiniões possíveis sobre como punir um estuprador assassino de menininhas:

-3 esquartejá-lo aos poucos até ele morrer
-2½ castrá-lo e estuprá-lo diariamente pro resto da vida
-2 enforcá-lo
-1½ castrá-lo
-1 torturá-lo
-½ prendê-lo perpètuamente
0 prendê-lo por alguns anos
+½ colocá-lo num programa de reabilitação social
+1 dar-lhe uma surra
+1½ dar-lhe um bofetão
+2 dar-lhe uma bronca
+2½ fazer-lhe cosquinhas no pé com uma pena
+3 xingá-lo de bobinho

A opinião da grande maioria do povaréu vai oscilar entre -½ e +½, raramente longe da média normal. E vai ser assim pra QUALQUER opinião.

Na realidade, só existe a gaussocracia; os governos democráticos são apenas sistemas pra dar emprego e meios de corrupção pra quem alega ser capaz de administrar um país através da média normal. Teu amigo apóia e coopera com a democracia apenas pq ele mesmo é um ser mediano, cercado de seres medianos. O q acontece numa democracia é q o centrão+½ tenta puxar a curva um cagagésimo pra cá e o centrão-½ tenta puxar um cagagésimo pra lá —e a curva de fato oscila periòdicamente, como uma gelatina. Mas no fundo, sempre, há 10 mil anos, há 100 mil anos, até mesmo onde nunca houve democracia, o centrão acaba predominando: só persistem as posições políticas e sociais mais coadunadas com a realidade física e biológica, com as possibilidades e exigências da física e da biologia –q por seu lado *tbm* tão fundamentalmente subordinadas ä curva de Gauss.

O mundo é Gauss: a arte é kitsch, a música é brega, a ideologia é sentimentalóide, a escola é burra, o governo é medíocre, e a democracia é pouco mais q um método pra periòdicamente desagradar ou incomodar alguém dalguma forma durante algum tempo. E, pra nosso doutor, tudo isso é esputàvelmente hilariante.

Sorry, periferia.

19 novembro 2010

Cerealismo

Carlos P. Motta, o mentor intelectual deste blogue, resolveu viajar pelo mundo sob os auspícios da Lei de Incentivo à Mentores Intelectuais, e tá passando uns tempos nos Euá. De vez em qdo ainda envia à nosso eurisófico doutor umas pérolas da hipoplausibilose guturoborbulhante generalizada neste mundo subnutrido. A mais recente foi este texto no verso da embalagem dum cereal euaense, marca Post:



HAHAHAHAHAHA

¿Como catsos pode algo chamado "honey nut shredded wheat" ser descomplicado? E se for simples mesmo (o q é mais provável) ¿por que dar-lhe um nome tão forçação de barra, meu santo? E ¿que jerdas tem à ver a vida ser complicada com o cereal matinal q um engenheiro de alimentos inventou? E o pior de tudo, se os caras querem dizer q o cereal não precisa ser complicado, ¿por que cargas d'água disseram "shouldn't have to be" = "não deveria ter q ser"?

HAHAHAHAHAHAHA

Aliás, complicado é escolher um cereal matinal nos Euá com a esbugalhante quantidade de cereais matinais vendidos lá.

A vida é complicada; mas a simplicidade não deveria ter q precisar poder ser.

aiaiaiai

02 novembro 2010

Repulsa ao nexo (2/2)

Difícil achar um adulto q não tenha se perguntado o qualoporquê de haver dois sexos na natureza. O cara vê os lindos mares, rios, campos e montanhas borbulhando de sexualidade pra cima e pra baixo numa fodeção imparável entre os dois sexos, vesgueia os olhos e indaga, "Mas ¿por que DOIS? ¿Por que não três?" E, mais à propósito, ¿por que não apenas um?: se o objetivo da sexualidade é a (auto-)reprodução, ¿por que a auto-fertilização e a partenogênese são tão raras?

Ou talvez a pergunta tenha q ser reformulada. Vejam esta: ¿Por que o sistema de dois sexos foi tão bem sucedido neste planetinha tão gostosinho? (A definição de "bem sucedido" é filosófica demais pra caber neste blogue.)

Uma hipótese recente –q faturou o Plêmio Plausível 1993– é a de q, no começo da vida aqui, a dimorfia sexual (ie, o sistema de dois sexos, Pedro Bó) vingou em organismos pluricelulares pq funcionou contra a velocidade de reprodução das bactérias e vírus, q os destruíam implacàvelmente. (Não, gente, ninguém sabe *quando* os vírus surgiram no planeta; mas nessa hipótese, surgiram manemeni junto com as bactérias, nos primórdios da vida, pq afinal dá no mesmo.) (E pra simplificar, de agora em diante, 'organismos pluricelulares' = 'plúris'; e 'vírus e bactérias' = 'vírus' –pq fica bonitinho.)

Os vírus e os plúris tão numa espécie de batalha ou corrida armamentista q já dura bilhões de anos. Os vírus se reproduzem ràpidamente, mas têm desvantagens: são microscópicos, então têm um raio de ação menor e dependem de portadores; têm "memória" curta do que já deu certo antes; e sua reprodução é simplória, mecânica e previsível, então ela não lida bem com mudanças aleatórias no meio. Já os plúris sexuados, se reproduzem mais lentamente; só q, apesar de sua maior lentidão, a relativa imprecisão do processo sexual resulta numa aleatoriedade genética entre indivíduos maior do q a q é possível produzir assexuadamente –tal como faz o vírus–, e daí uma probabilidade maior de um plúris seguir existindo como espécie, pois tá sempre no mínimo um passo ä frente da variação do vírus, q se reproduz mecânicamente.

Pois então. Quase toda a história da vida complexa neste planeta pode ser vista como essa batalha dos organismos pluricelulares contra as bactérias e vírus. Qto mais espécies diferentes de plúris houver, tanto mais eficientemente eles se escafedem dos vírus. Os plúris se diferenciaram em plantas e animais, e depois nas miríades de classes e gêneros, alimentando-se uns dos outros, à cada passo escapando da sanha assassina microscópica ininterrupta insensível empedernida mecânica do vírus. Este é o primeiro e o maior PREDADOR do plúris: é seu inimigo número um. A moralidade é necessàriamente resultante de o plúris ser a presa do vírus.

... ôpa ôpa ôpa ¿¡¿QUÊÊÊ?!? Mas ¿tás viajando, doutor? ¿Ficou bobo na corte inglesa? ¡Que salto mortal, meu caro vatso! ¿Que catso tem à ver o vírus com a moral? ¿Planta por acaso tem moral?

Ué, diria nosso efluvioso humanista, ¿não é óbvio? Não?

Vai mais devagar aê, ô, efluvioso.

Não sei se o nobre leitor já percebeu um detalhe sobre a moralidade. Todo princípio moral... peraí, dexeufrisar, TODO (¿leu bem?: todo) princípio moral é em essência um paradigma entre presas com livre-arbítrio, é um agente conglomerante de indivíduos ambulantes em perigo, é uma defesa contra um predador (concreto ou abstrato) –e é tanto mais exitoso qto melhor co-opta o próprio predador. Este, enquanto preda, é imoral e amoral: só é regulado por suas necessidades orgânicas, sua química orgânica, seus mecanismos vitais, sua lógica devastadora. O predador tbm pode ter moral, sim; mas seus comportamentos morais intra- e extra-espécie aparecem ùnicamente qdo sua sobrevivência *não* tá em jogo. Se descermos pelos inúmeros ramos correntes da moral, em direção ao passado paleocitológico, desfazendo as bifurcações todas uma à uma, chegando ao tronco primitivo, ä primeira manifestação dum pré-princípio moral originário germinativo e desencadeante, bilhões de anos antes do q Nietzsche sequer conseguiria imaginar, veremos a genitura de toda moralidade no esboço do futuro plúris, com suas moléculas vagarosamente formando um esquema de defesa bioquìmicamente colaborativo entre indivíduos parecidos. Uma parte, desprovida de liberdade espacial (o reino vegetal) encontrou meios mecânicos de resistência ao vírus. Na outra parte (o reino animal), tudo q deu certo desde então na batalha contra o vírus foi uma ampliação, uma diversificação e uma complexificação paulatinas dessa colaboração bioquímica na sopa ancestral, co-optando o reino vegetal. Mas o vírus permanece como arqui-predador, o Mal-em-si, o capeta, pure evil, o anjo da morte, o morto-vivo q tem um completo, gélido e aterrador desprezo pela ãã "vida".

E, claro, no centro da colaboração bioquímica tava a dimorfia sexual. A resposta ä pergunta "¿por que 2 sexos?" deve ser "porque 2 é o menor número inteiro depois de 1." Na economia biológica, o 2 dos plúris é suficientemente alto e eficientemente baixo contra o 1 dos vírus.

Então, apesar de soar estapafúrdia ä enésima potência e cheia de buracos, a hipótese plausível não pode tar muito longe da verdade: a origem da moralidade tá na origem da dimorfia sexual –daí o sexo figurar tão, digamos, tão bojudamente tanto nas prescrições morais qto nas trangressões, intrigas e folclores. Os comportamentos bioquímicos q promoveram a manutenção e evolução dos micro-plúris ancestrais são aqueles q se tornaram a moralidade; ou seja, a moralidade de hoje descende de comportamentos bioquímicos ancestrais.

Aquilo q o humano médio vê como moralidade são as inúmeras ramificações deduzíveis e induzíveis de dois eixos principais: sexo e agressão –a normatização do sexo e o controle da agressão: duas prioridades presentes deeeeesdo cafundó das tripa. A agressão original dos vírus contra os plúris, e o sexo original na relação inter-plúris. Não importa q, com a gradual complexificação da ecologia, a defesa contra agressões viróticas tenha se tornado uma defesa contra agressões entre diferentes espécies de plúris e, mais tarde, uma defesa contra agressões dentro da mesma espécie (tal como acontece entre humanos): os comportamentos "aprendidos" (ie, fixados) por meros aglomerados de células certamente se complexificaram e foram usados por organismos mais complexos, até chegarem ao despirocamento total q é a cultura humana. Tudo no humano é mais complexo e diversificado. O âmbito humano tem desde agressões escabrosas tais como um soldado invasor estuprando e degolando uma criança filha de inimigos, até agressões sutilíssimas tais como jogar um papel de bala no chão do elevador sabendo q o faxineiro do prédio vai ter q recolher.

Há quem postule q até a distinção entre sexo e agressão é falaciosa: é possível q sexo seja mesmo –tal como querem, por exemplo, algumas feministas– um tipo de agressão: isso q hoje são macho e fêmea da mesma espécie podem originalmente ter sido duas espécies de micro-organismos ligeiramente diferentes uma da outra; a agressão sexual original era o proto-macho invadindo forçosamente a proto-fêmea pra nela incubar seu dna. Muito se fala da harmonia, da interdependência e beleza na relação entre fêmea e macho, x e y, lua e sol, ying e yang, ♀ e ♂, e o caralho à quatro (!) mas é possível q na verdade a ♀ não precisaria do ♂ pra se reproduzir. Usa-se a palavra 'homem' como sinônimo de 'humanidade', mas a verdade pode ser q a mulher é q é o humano fundamental.

Daria pra ir até um pouquinho mais longe. A origem da moral não tá na origem da vida: não haveria moral alguma num planeta em q a vida consistisse dum único organismo descomunal, do tamanho desse planeta. A origem da moral é posterior ä origem da individuação de organismos separados, autônomos porém interdependentes. A independência espacial é um marcador da moral: as plantas não têm.

Mas... mas... ¿pra quê tudo isso, doutor? Meeeesmo q tenha acontecido assim –o q é questionável–, ¿que relevância tem? ¿Que diferença faz hipotesar, ou faria saber, q a moralidade tem essa genealogia?

Ora, de novo, ¿não tá óbvio? diria o doutor, ¿preciso explicar TUDO?

Ah, tá bom; é q prometi falar tanto da origem qto do ESCOPO da moralidade; e o escopo é q é o grande pô, né?

Pra isso, é preciso distinguir sexo de agressão. Agressão é toda ação proposital física, ou de conseqüências físicas, q atrapalha teu bem-estar, tuas coisas-funcionando-normalmente, e portanto perfaz toda a gama da causação de desconfortos, incômodos, desagrados, prejuízos, violências, ferimentos, traumatismos, aleijamentos e homicídios. (Note q, em se tratando de humanos, a definição de agressões sutis [desconfortos, incômodos e desagrados] pode chegar ä beira da paranóia –tipo achar imoral "fazer pouco da religião X" ou "tirar sarro do sexo Y" ou "avacalhar a raça Z" até mesmo qdo nenhum x, y ou z tá presente pra sofrer a "agressão". A fala tornou o macaco refém 24hs da moralidade pq, como se diz, "as palavras têm conseqüências".)

Voltando, se separarmos o q é estritamente sexo/reprodução do q é sexo mais agressão, veremos q o escopo da moralidade na verdade não inclue o q é estritamente sexual, nem sequer os chamados "desvios". Todo aspecto da biologia tem uma tendência à se expandir, uma ganância; e a ganância dos códigos morais embutiu a moralidade na sexualidade com a desculpa da defesa contra os predadores sexuais e os ãã descompromissados com a reprodução (ie, os não-aliciados contra as hostes viróticas: homossexuais, abortistas, &c). Toda essa codificação do sexo promovida pelas religiões –atitudes, comportamentos, vestuário, estratificação social, a parafernália toda– em si faz parte da agressão, tanto da agressão predatória do macho contra a fêmea, qto da agressão estratégica da fêmea contra o macho. A agressão não tá no puramente sexual; tá é nos paramentos culturais q procuram idiotamente proteger a sexualidade. A intromissão das religiões e outros sistemas morais na sexualidade é na verdade contra-producente: desvia a atenção da tarefa principal, q é a batalha contra os vírus. Qto mais sexo, qto mais diversificadas forem a fodeção, a começão e a trepagem reprodutórias, tanto melhor a espécie humana se defende contra os diabinhos virais. Só q os guardiães da moral e dos bons costumes não querem nada disso. "NananinaNÃO. Bicho pode, pq bicho é bicho e não sabe ler Bíblia, não tem toda essa complexidade humana." Muita gente complexa e muita gente ãã menos complexa (e –triste notícia– há sim, viu, uma gradação entre humanos menos e mais complexos), qdo imagina como seria o mundo se liberassem geral a putaria universal não-agressiva, têm bàsicamente três pavores: sexo com menores, homossexualismo e aborto. Note, caro leitor, q todos os três pavores brotam diretamente dum zelo pelo instinto reprodutor e resultam em objeções proibitórias.

Das três objeções, só tem plausibilidade moral aquela q diz respeito à sexo com menores. A criança é um ser muito delicado pra ser aviltado dessa forma imbecil por gente idiota. Sexo com menores é sexo + agressão, e os dois aspectos são biològicamente aviltantes: o sexo não reproduz (ou não nutre a reprodução adequadamente) e a agressão traumatiza a capacidade reprodutiva da pessoa agredida. Não é por acaso q meramente ouvir falar dum estupro de menor dói em 99% dos humanos.

Sobre a segunda objeção, seria idiota usar a visão biológica pra espezinhar o homossexualismo por sua ãã tendência à não produzir bebês. Um indivíduo q, por qqer q seja o mecanismo inerente à si, não prioriza sua reprodução é, evolutivamente, um beco sem saída, um ponto-final de ramificação. Deixa ele em paz, então, né? Na enormidade da escala biológica, ¿qual é o pobrema? Tem comida pra todo o mundo, e até os vírus entram em becos evolutivos sem saída.

A terceira objeção é biològicamente interessante: pô, qqer humanozinho novo ajuda na batalha contra o vírus, ora pois não? No entanto, a proibição do aborto não se sustenta numa espécie q elevou a moralidade à um código consciente e racional de proteção física e psicológica sistemática do indivíduo. Se é pra ser isso, então q seja, né, catso. Ao nascer (ie, ao tornar-se um ser fìsicamente autônomo), o indivíduo recebe da sociedade o reconhecimento de seu direito ao controle de seu corpo. Qqer outra pessoa, qqer ser, qqer célula, qqer molécula precisa da autorização explícita do indivíduo pra sabidamente penetrar, permanecer em, alimentar-se de, brotar em e transformar seu corpo. Alguns diriam q um câncer faz isso na maior, sem autorização. Sim, e é por isso q se dá ao indivíduo portador de câncer o direito de extirpá-lo à seu bel-prazer, mesmo q pra isso tenha q amputar parte de seu corpo. Com o aborto não é diferente. Pelo código moral de proteção sistemática do indivíduo, a mulher é a suprema autoridade sobre o interior de seu próprio corpo, òbviamente incluindo seu útero.

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E é isso. Por esses exemplinhos genéricos, já se vê q, qdo entendida genealògicamente, a moral demonstra ter um escopo mais restrito do q o q querem os fominhas religiosos e filosóficos de todos os cantos do planeta, q a imaginam derramada majestosamente do céu num pacote pronto. Apesar de todos seus problemas –os q mencionei aqui, os q pensei mas não mencionei, aqueles q o próprio doutor deve conhecer, e os q os leitores podem levantar– a hipótese plausível da moralidade demonstra q não é preciso postular nem pressupor uma metafísica ou uma entidade criadora sobrenatural pra explicar e esclarecer a existência da moralidade entre humanos. Basta uma genealogia.

Talvez o maior problema com a hipótese plausível da moralidade é q ela é demasiadamente simples; e a biologia, sua esbugalhante variedade e quantidade de interações, é o mais complexo fenômeno conhecido.

Por outro lado, é meio anti-climático q a hipótese plausível tenha elementos tão parecidos com os de mitos criacionais tipo adão-e-eva: casal é predado por vilão pérfido, dando origem ä humanidade; e então pode até ser q mesmo a interpretação dimórfica da origem da vida complexa de algum modo seja herdável como bagagem da consciência, como uma prisão cognitiva da qual o humano jamais conseguirá sair: a moral talvez nunca escape de ter explicações tipo adão-eva-serpente. Entretanto, a hipótese plausível arranja as coisas diferentemente. A tradicional desértica é

[adão+eva]/serpente=moral

; a plausível tá mais pra
eva/serpente=[moral]+[adão|eva].

E vc leu isso primeiro aqui.

Então, toda vez q vc ouvir um lambisgóio religioso, em sua repulsa ao nexo, afirmar q ele só não sai por aí "estuprando e matando" (!) pq é amado por um deus q ele cegamente obedece pois leu num livro q é assim q se deve agir, vc já sabe o q dizer: nananinaNÃO.

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Aos q até aqui chegaram, nosso extricante humanista tem mais uma palavrinha. Colaboração, empatia e justiça tão presentes em todo o reino animal. Não há empatia sem colaboração, não faz justiça quem não tem empatia. Mas ¿já viu aqueles bandos de gorilas no mato sentados com cara de tédio? ¿aqueles jacarés todos nas margens deitados olhando pro nada? ¿aqueles cardumes de sardinhas no mar indo à esmo de cá pra lá? Pois é, nunca vão chegar à lugar nenhum desse jeito, bando de preguiçosos. Os humanos podem chegar um pouco mais longe pq colheram mais um fruto cuja origem remonta ao primeiro plúris, um fruto q só poderia ter brotado depois q um primata conseguiu entender a moral racionalmente, depois q raciocinou sobre o outro: a moral da contribuição. Um besouro pode colaborar com seus iguais; uma onça pode ter empatia com um macaquinho; o humano hoje se organiza pra tentar maximizar a justiça, ou pelo menos pra hipòcritamente aparentar isso, ou caminhar nessa direção. Mas... os mais complexos e completos humanos de hoje já nascem naturalmente com mais este requinte da moral: a pulsão de contribuir, de se dar ao trabalho de dar um passo à mais pra jogar um papel no lixo, perder dois segundos segurando uma porta pra outra pessoa, abrir a janela pruma borboleta sair, desviar-se polidamente de outros transeuntes na rua, ouvir ipod baixinho com fone de ouvido qdo em público, salvar velhinhos em incêndios, deixar os outros serem como são, coisas do tipo. A contribuição é a justiça empática colaborativa q um grande gênio pode usar com um mongolóide, e vice-versa.

Muitos anos atrás, uma enorme agência de publicidade alemã contratou nosso doutor como consultor pruma campanha de segurança nas autobahnen. A sugestão doutoral, tìpicamente plausível, foi de fazer anúncios com um bruto acidente de trânsito espalhando sangue e pedaços de corpo pra todo lado e, atrás, um monstruoso congestionamento causado pelo acidente; o eslôgã: "Não atrapalhe a vida dos outros. Evite acidentes." Passou despercebida a piada de intimar a contribuição de não intimar contribuições. Paciência. Talvez daqui à 10 mil anos.
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(contribuiu: Bel Seslaf)

21 outubro 2010

¡Parla, Tiririca!

Incontados leitores têm exigido veementemente q eu termine a série sobre a origem da moralidade. Posso adiantar q o último e funesto capítulo tá bem adiantado, mas sofre com a falta de subsídios intelectuais de nosso eviscerante doutor, passando uns tempos na Inglaterra. Dizem as reportagens q, em vez de trabalhar, ele fica horas esbugalhando-se em frente ä tv assistindo ao vivo äs sessões do parlamento britânico, descabelado, com a barba chegando ao umbigo, tomando chá verde e biscoitinhos de gengibre.

Mas ¿quem há de culpar nosso emoldurante humanista? O parlamento funciona assim, ó: o governo dum lado e a oposição do outro, mediados por um mesário; este dá a palavra ao primeiro-ministro pra ele propor legislação, diretrizes, &c; o PM senta e o líder da oposição se levanta e desce o malho. Aí vira um debate cara-a-cara coalhado de sarcasmo de quem fala e hipocrisia de quem ouve, e gargalhadas do doutor. Imperdível. Ou pode ser q quem fala é o zé das finanças do partido governista – em cujo caso a malhação é liderada pelo sombra dele (ou seja, aquele q seria o zé das finanças se o partido ora em oposição fosse o governista). E assim vai.

Toda semana, o primeiro-ministro tem q se plantar ali e responder perguntas na lata, sobre qqer assunto nacional relevante, e tem q tentar convencer – ou ridicularizar – a oposição com argumentos, presteza, humor e lábia.

Vejam uma amostra, da época em q o John Major era primeiro-ministro e o Tony Blair era o líder da oposição:



Uma coisa dessas num congresso de selvagens dava em facada e tiroteio.

Ou este vídeo mais longo, engraçadíssimo, da primeira sessão de perguntas ao Tony Blair já como primeiro-ministro.


http://www.youtube.com/watch?v=MryC6qC3FYA


¡Ma quê presidencialismo o caralho!

Contraste com o sistema de governo brazuca. Há muito q o doutor gargalha, mas por oooooutros motivos:

http://drplausivel.blogspot.com/2004/11/as-cmera-nas-cmara.html


Vendo de quê é capaz um parlamento de fato, qqer um deve concordar em q, pelo menos no Brasil, o sistema presidente-e-congresso é na verdade uma discurpa pra disfarçar as grotescas inépcias verbais dos nobres deputados e senadores: lentidão, vacilo, tergivesação, confusão, afetação – sem falar na gagueira mental, né? É tipo, presidencialismo tem oratória e pedantismo; parlamentarismo tem debate e sarcasmo. Qqer um q vê vai ver q o segundo é mais, digamos, ãã... melhor.

É claro q todo político de qqer país no fundo quer a mesma coisa; há corrupção, incompetência, clientelismo em todo lugar. Mas o parlamentarismo tem suas vantagens. Não a menor delas é q um cara só chega à primeiro-ministro se for híper-inteligente, ilustrado e articulado, e tem argumentos; em conseqüência, mesmo q vc não concorde com o canalha, vc tem q no mínimo levar o cara à sério e responder à ele em fórum público, com igual inteligência.

O Brasil, no entanto, é o país da democracia total, a democracia em sua mais profunda e libertária expressão: um país em q, como já dito aqui, contanto q brasileiros alfabetizados maiores de 21 anos, um coveiro de Catingópolis ou uma mendiga de Futum do Sul podem dirigir a nação. Taí o Tiririca, q não me deixa mentir.

QUAQUAQUAQUAQUAQUA

Aliás, quem leu o acima exposto já deve tar achando q o doutor acha um bessurdo o Tiririca e a Weslian, né? É e não é. Mais, depois.

25 setembro 2010

Repulsa ao nexo (1¾/2)

Tá meio difícer achar o Dr Plausível, tadinho, pois ele tá lá em Londres até novembro. Prometi escrever sobre a tese plausível da origem e escopo da moral, mas o cara fica lá ocupado na análise da viabilidade das catracas na rede cicloviária, e na implantação dum sistema plausível de transporte individual. Ontem mesmo, visitou uma bicicletaria. É um dínamo da energética, nosso doutor. Então, please, relevem a natureza esboçosa do q segue abaixo. Cada frase tá passando por um campo minado de controvérsia, de falta de dados, de nomenclatura imprecisa, de interesses religiosos e políticos, de preconceitos e arrogâncias humanas.

Dizer "tese plausível da origem e escopo da moral" já deixa claro q, caso se prove daqui à três séculos ou seis milênios q essa tese não é um espelho da realidade, no mínimo poderia muito bem ser: ou seja, pelo menos em tese, ela é testável, e portanto o doutor jamais vai esperar q alguém creia nela. 'Crer' não tem significado autônomo: crer é apenas uma expectativa de saber; então fiquemos com o Saber, por menor q seja (o já-Saber); quem tiver um Crer à oferecer, pode guardá-lo pra si, muito obrigado.

Mas hipotesar não é crer. Então não me venham com picuinhas. Dito isso, vamos lá:

Tamos aqui neste planeta fervilhando de vida, e das duas, uma: OU apareceu tudo de repente num putativo ato de mágica criadora, OU houve *alguma* hierarquia de eventos –uma evolução hierárquica, uma árvore genealógica de estados q resultou na conjuntura presente. Toda teoria presume e confirma uma árvore de eventos: a Teoria da Enorme Explosão e a Teoria Evolutiva são apenas duas no enxame de teorias existentes (a Teoria dos Números, a Celular, a Musical, a Lingüística, &c &c &c), e todas presumem e confirmam –e devem confirmar– uma árvore genealógica cujos últimos ramos são a complexidade presente.

Já as teorias da moralidade, têm um problema: elas presumem uma hierarquia sem genealogia; elas analisam a moral como pronta, caída do céu –tanto figurativa qto literalmente. Um livro à propósito é Wild Justice: The Moral Lives of Animals, de Marc Bekoff e Jessica Pierce, q analisa a moral em três conjuntos de comportamentos: cooperação, empatia e justiça:

The cooperation cluster includes behaviours such as altruism, reciprocity, trust, punishment, and revenge. The empathy cluster includes sympathy, compassion, caring, helping, grieving, and consoling. The justice cluster includes a sense of fair play, sharing, a desire for equity, expectations about what one deserves and how one ought to be treated, indignation, retribution, and spite.

Os autores então observam esses comportamentos discretos em inúmeros animais, mormente vertebrados, e verificam q, qto mais inteligentes, tanto mais comportamentos exibem dentro de cada conjunto. Por exemplo, o chimpanzé exibe todos os comportamentos cooperativos listados, mas o pardal só exibe claramente, sei lá, altruísmo e punição.

Mas (diz nosso exurbano doutor) se essa variedade horizontal de comportamentos pode ser classificada em conjuntos, ela tem q ter uma genealogia vertical. Se toda língua descende duma língua-tronco, se todo mamífero descende dum mamífero-tronco, se toda célula especializada descende duma célula-tronco, então todo comportamento cooperativo deve descender duma cooperação-tronco; toda empatia, duma empatia-tronco; todo senso de justiça, dum senso-de-justiça-tronco. A cooperação-tronco, por exemplo, se especializou nos comportamentos discretos de altruísmo, reciprocidade, &c cada vez mais identificáveis qto mais complexo o organismo. Mesmo q um mosquitinho não exiba um comportamento identificável, digamos, como 'reciprocidade', ele exibe comportamentos q podem plausìvelmente ser identificados como dentro do tronco 'cooperação'.

Agora observe os micròbiozicos piquititicos de 3 bilhões de anos atrás, uns grãozinhos vivos dançando em poças d'água. É impossível imaginar até mesmo essas proto-vidas vingando e se reproduzindo sem comportamentos no mínimo assemelhados ä cooperação. 1 bilhão de anos atrás, qdo deve ter aparecido a reprodução sexuada, tinha q haver algo parecido ainda q marginalmente com empatia: pra q vinguem a vida em comum e a reprodução até mesmo dos mais minúsculos eucariotos sexuados, alguma coisa, digamos, construtiva já precisava acontecer entre dois vermezicos q se encontravam um perante o outro e –no mínimo quìmicamente– "se reconheciam" como da mesma espécie. 600 milhões de anos atrás, já havia animais complexos e, dado o cansativo trabalho q dá ser um animal neste planeta, pode-se enxergar o senso de justiça progressivamente ganhando foco através do territorialismo, da raiva, da competição, &c. O importante aqui é ver q, apesar de o senso de justiça só ganhar foco com os animais complexos, o tronco sempre existiu ao lado dos da empatia e da cooperação. Os três são meramente ramos dum tronco maior, o tronco do bem-estar-comunal –ou, noutras palavras, o tronco das coisas-funcionando-normalmente.

Pois ça va sans dire q o bem-estar dum plúris é uma condição sine qua non pra sua mera existência.

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¿Que será um "plúris"? ¿Qdo é q isto vai acabar? Não deixe de perder o último e emulsionante episódio desta saga, qdo, numa reviravolta deprimente, TUDO –toda a história humana, toda a complexidade da moral– começará à fazer ainda menos sentido.

30 agosto 2010

Repulsa ao nexo (1½/2)

Não é por covardia q nosso everminante doutor mormente se abstém de cutucar gente armada. É meio por dó. Pois pô, ¿não dá dó ver bicho em gaiola? ¿Não dá dó ver um magnífico pastor-alemão trabalhando prä polícia, condicionado à abnegar seus instintos e à mijar com hora marcada? ¿Não dá dó ver grupos inteiros de gente fascinada por mitos, crendices e superstições se ensardinhando dentro de códigos sexuais e alimentares, códigos de penteado, de conduta, de higiene, códigos de vocabulário, de vestuário, de horário, &c? Toda vez q vê siques enrolando a juba em turbantes, evangélicos regurgitando palavras de ordem, judeus ortodoxos vestindo preto dos pés ä cabeça, muçulmanas escondendo o corpo todo exceto os olhos, &c &c e todos esses fundamentalistas mantendo em volta de si uma jaula de amarras sociais, o doutor sinceramente tem dó. Ele gargalha tbm, mas é aquela gargalhada humanista dele, cheia de respeito pelo humano por trás do disfarce, repleta duma ternura especial por humoristas involuntários. Ele entende tbm q a liberdade mental talvez não seja pra qqer um, q no mundo há um vasto contingente q só funciona ä base de chicotes imaginários, ameaças altissonantes e promessas de recompensa. ¿Não dá dó ver um magnífico cavalo arando a comida pro dono, com uma cenoura pendurada ä frente e um chicote estalando na bunda?

Pois é.

Claro q a fundamentalhada toda tá nos extremos duma curva de Gauss plotando o radicalismo. A grande maioria do povaréu tá mais pro meio –e essa é sua desgraça. ¿Por quê? perguntam leitores ensandecidos. Ora (responde o doutor, brandindo truquelhos de retórica), pq as crenças e ideologias estanques, apesar de tarem nos extremos da curva, são *a fonte* do barulho; são como escola de samba ensaiando numa praça: uns 20 batuqueiros espancando o couro de gato, uns 200 gatos-pingados em volta dançando, bebendo e cantando e, circundando essa turba rude, ruidosa e ruim, 20.000 pessoas quietas em suas casas, tentando viver normalmente, obrigadas à ouvir a ribombância mórbida e repetitiva q vem da praça. A maioria silenciosa tbm é a maioria ouvinte: o estardalhaço de 20 batuqueiros continua no ouvido interno mesmo depois de terminado o ensaio; o espaço mental de muitos é invadido e apossado pela ribombância de poucos. E pior: o radical mede seu sucesso não pela textura de seus ritmos, mas pela penetração de seus ruídos. (E sim, eu sei q não dá pra escapar da curva de Gauss.)

Um dos ruídos mais disseminados –o batuqueiro 24 hs– é a noção q todo monoteísta tem de q seu deus é o autor da moral, de q a moralidade se derrama sobre a humanidade diretamente da deidade de plantão. Esdrúxulo, né? Pois se todo ato volitivo do humano tá pré-julgado como "bom" ou "mau", ou "certo" ou "errado", então ¿pra que cargas d'água viver? Muita gente já tentou assobiar e chupar cana, mas não há meio de conciliar a moral pré-derramada e o livre-arbítrio, de modo q reste um pingo de dignidade humana. Sorry.

Mas catso, toda vez q alguém deposita um batuqueiro implausível no meio da lógica, 20 mil filósofos são obrigados à ouvir o pum-pum-pum interminável. E não só eles, claro, pois todo monoteísta ìntimamente se pergunta ¿pra quê? Daí q se vê obrigado à inventar, re-inventar e martelar o ad hoc de q, na verdade verdadeira mesmo, tamos aqui é pra "servir" à um deus criador, q ele tá fora da lógica, q mesmo assim ele te ama, q ele até permite q vc reclame de vez em qdo &c &c &c. Mas não dá pra pisar num cocô sem q ele se esparrame: o platonismo forçoso desse ad hoc demonstra a gargalheza do argumento. O argumento em favor da origem monotéica da moral é como a calúnia: fácil de criar, mas dá um trabalho do cacete pra dirimir; e esse é, òbviamente, o objetivo da calúnia, q tbm é o do argumento monotéico. –não é resolver um problema; é *tornar-se* o problema à resolver.

Então tchau. (Pq pô, né?)

Só q, se vc tem um plausômetro em bom estado na cachola, o problema persiste. ¿Dadoné q vem a moralidade? ¿Cumé q as opiniões de tanta gente coincidem em condenar, por exemplo, o estupro duma criança de 5 anos? ¿Quéquié isso q dói em 99% da humanidade ao ficar sabendo dum ato desses? ¿Será mesmo q tem algo de fundamentalmente errado no estupro duma pirralha? É esse o tipo de pergunta q esta série de artigos pretende responder. Esqueçam a teologia: contos da carochinha não são hipóteses. Não venham dizer q a moralidade é "culturalmente determinada": neste blogue só tem gente grande, q já superou os passatempos de sociólogo. Nem aventem a psicologia: Freud et al se entretêm com uma parcela mínima dos fenômenos humanos. Tampouco aventem uma "lei natural": isso é empurrar o problema com a pança. Pra q a moralidade seja tão disseminada, e pra explicar o evidente continuum moral entre o humano e os outros animais, tem q haver um motivo básico, fundamental, inempurrável –algum motivo plausível, digamos.

Na próxima parte desta mini-série, a tese plausível vai demonstrar q dá pra se ver a origem da moral retroativamente na protomoral dum protoplasma protocelular protobiótico. ¡Não deixem de perder!

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(As demoras entre os artigos são pq a comunicação com nosso egrégio doutor tá um pouco truncada, já q ele tá passando um tempo nas ilhas britânicas, resolvendo alguns pepinos, à pedido da Casa dos Windsors.)

25 julho 2010

Repulsa ao nexo (1/2)

Nosso equânime humanista sempre se esborracha de rir qdo diagnostica uma infecção hipoplausivirótica na conexão entre o córtex frontal e a base do cérebro. Resulta numa patologia estranha –um idealismo autômato, um mecanicismo sonhador, um estrabismo ritualista. O mais patente sintoma dessa infecção é negar a biologia como causa, motor e fonte de todo e qqer aspecto humano –de toda cultura, toda ideologia, todo costume–, e negar a física como determinante primeiro da biologia. É como vc tar em terra firme achando q tá flutuando no mar.

Permeando a colossal e detalhada estrutura da civilização, a maior parte dos seres mais complexos há de reconhecer a ubiqüidade da Racionalidade –fruto fortuito da física– e do Senso de Justiça –brinde bastardo da biologia. Embora os caras se jactem da Rac. e do Senso de Just. como construtos humanos, essas duas abstrações têm com a física uma conexão mais fundamental do q há, digamos, entre a instituição do casamento e a biologia. É por causa dessa conexão q todo o mundo procura explicar seus atos e idéias invocando sempre a Rac. e a Just. –tragicômicamente sem no entanto levar em conta q pode tar sendo vítima inocente dum ataque hipoplausopoplético na região HL73m da massa cinzenta.

Mas, sendo a biologia em grande parte uma consumação do acaso, a Justiça não é um mapeamento quid pro quo da Racionalidade. O bundo abunda em abostras do desacordo entre as duas. Por exemplo, ¿por que cargas d'água na supracitada instituição do casamento o mais comum é q se renomeie a mulher com o sobrenome do pai do homem, e qdo vêm os filhos esse mesmo sobrenome prevaleça sobre o do pai da mulher? A explicação invoca a praticidade: é racional q os sobrenomes não se amontoem à cada nova geração, q um neto de Zébrio Abreu Borja, Xenha Costa Dias, Vânio Engels Faria e Úrvula Gomes Hassenteufel não se tenha q chamar pelo trambolho Rânio Borja Faria Dias Hassenteufel Abreu Engels Costa Gomes. Portanto, o costume racionaliza o processo e chama o moleque de Rânio Faria Borja, e dá o mesmo sobrenome à sua irmã Sujely. Veja na figura abaixo o q acontece. Os homens tão em azul e as mulheres em rosa (aiaiai, os clichês). Os sobrenomes herdados de pais tão em fonte preta; os de mães, em fonte vermelha. Note q cada mulher herda como sobrenome principal o sobrenome principal de seu pai.


Pelo método tradicional, como se vê, ao fim de duas gerações os oito sobrenomes iniciais se reduzem à dois: os irmãos Rânio e Sujely são Faria Borja; seus primos Felvin e Quotilde são Borja Faria. Mas ¿por quê? ¿Por que restam apenas os sobrenomes dos pais de seus avôs, dos avôs de seus bisavôs? ¿Que aconteceu com suas avós e bisavós? ¿Que aconteceu com a identidade de TODAS as mulheres envolvidas? Todas elas ficaram 9 meses com um peso à mais, em geral sacrificaram-se muito mais fundamentalmente em prol da existência e manutenção dos filhos, e no entanto sua linhagem é sumàriamente esquecida. Pois tanto qto existe uma linhagem masculina, existe uma feminina. Se todo humano é fruto sine qua non dum homem e duma mulher, e deve sua genética à ambos, o senso de justiça aí falhou: a linhagem masculina permanece ùnicamente pq prevaleceu a crua biologia: o homem é em geral mais forte, mais violento e mais cretino do q a mulher. Não é ä toa q a sogra do marido seja folclòricamente uma personagem desagradável: ela é a mais injustiçada, pois seu sobrenome é o primeiro à ser descartado. (Nos pouquíssimos sistemas matrilineares, a injustiça se inverte: é a linhagem feminina q permanece, pq aí prevalece a crua domesticidade: a mulher é em geral mais estável, mais teimosa e mais cretina do q o homem... ¡Êpa, uma contradição!)

Mas não se desesperem, afoitos defensores da Racionalidade e da Justiça: tem uma solução. Sempre q um casal de conhecidos tá grávido, o Dr Plausível propõe q batizem a criança diferentemente de acordo com seu sexo. Se menino, q herde o sobrenome do pai; se menina, q herde o da mãe. Uma série de homens preserva um dos sobrenomes; uma de mulheres preserva o outro. Muito mais justo, né não? Reconhece, leitor machista; estraçoa teu preconceito; expunge tua cisma; esbarronda tua repulsa.

Pra q o sobrenome da prole represente tanto a linhagem do pai qto a da mãe, há três métodos de organizar a coisa. O primeiro é o q vcs já conhecem: ao sobrenome da mãe, segue-se o do pai em qqer caso, mas esse já vimos q é injusto. Aplicando-os äquela família acima, há tbm um segundo e um terceiro métodos q fazem mais justiça ao lado feminino da coisa. Um deles preserva quatro sobrenomes; o outro, os oito –pelo menos até a terceira geração.

No segundo, tanto o filho qto a filha herdam o sobrenome do pai do pai e o da mãe da mãe, mas os da menina invertem os do menino pq elas herdam como sobrenome principal o de suas mães e avós. Por exemplo, Rânio Hassenteufel Borja é irmão de Sujely Borja Hassenteufel; sua prima Quotilde Faria Dias é irmã de Felvin Dias Faria.


Este método tem a vantagem de ser fácil de explicar e entender, e sua maior justiça é evidente: quatro sobrenomes foram preservados, dois da linha paterna e dois da linha materna.

No terceiro método, o filho herda o sobrenome do pai da mãe e o do pai do pai; a filha herda o da mãe do pai e o da mãe da mãe. Pros meninos, só sobrenomes da linha masculina; präs meninas, só dos da linha feminina.


Este método é o mais justo: embora recombinados, os oito sobrenomes se mantêm intactos nas três gerações. A desvantagem é a confusão: Rânio Euler Borja é irmão de Sujely Costa Hassenteufel, e sua prima Quotilde Gomes Dias é irmã de Felvin Abreu Faria.

O método mais prático é o menos justo, e o mais justo é o menos prático; escolha-se o meio termo.

Mas pergunta aí se algum conhecido, amigo ou parente do doutor já aceitou a sugestão plausível; pergunta se alguém algum dia vai aceitar. A Racionalidade e a Justiça –esses poderosíssimos construtores de civilizações– perdem feio pra dois atributos subjacentes do Universo: a regularidade e a inércia –q
se expressam, nos seres vivos, através do grilhão parvo e tosco do hábito e, na cultura, através do estupor animalesco da tradição. (¿Tudo isso só pq os caras não aceitam uma idéiazinha? ¡Que azedume, hein?)

19 julho 2010

Economije

A conscienciosidade social de nosso empapado Plausível é um oceano sem tamanho. Exceto, claro, onde o social não tem conscienciosidade plausível. Pq, vejam bem, ¿como é possível q tantas pessoas acreditem q temos q economizar água pra colaborar com o planeta, recomendando q cada pessoa use entre 150 e 200 litros por dia, e ao mesmo tempo acreditem q temos q beber em média 12 copos d'água, uns 3 litros, por dia? Qdo a mesmíssima edição duma revista ou jornal ou noticiário diz as duas coisas em páginas/blocos diferentes, tão precisando tomar um chá de Plausibilol, ¿não tão não?

¿Ou não tão?

Dirá o intreinado leitor, "¿que são 12 copos d'água perto dos 200 litros pra tomar banho, lavar roupa, cozinhar o feijão, &c?" Sigamos, pois, o experimento q o doutor realizou, e é provável q vc tbm, leitor, depois gargalhe e gargareje como ele.

Um dos sinais de q vc tá bebendo água suficiente é a cor da urina. Dizem os pecialistas q ela deve ser quase transparente, minimamente amarela. O experimento do doutor durou uma semana. No primeiro dia ele levantou cedo e foi ä privada mijar pra ver de que cor tava a dele. Hmm. Bem amarela. Bebeu um copo d'água. Começou à trabalhar. Logo sentiu vontade de mijar novamente. Sua urina apareceu levemente menos amarela. Bebeu outro copo d'água. Logou mijou de novo e foi repondo a água q mijava até a noite, qdo, 12 copos d'água depois, constatou satisfeito q sim, sua urina tava muito mais transparente. E ¿não é q funciona mesmo? ¡Hurra! ¡Viva! ¡Cerveja pra todo mundo!

          Ao fim d'último dia
          a doutoral urina
          fluiu tão cristalina
          q quase não se via.


Mas...

Cada vez q foi ao banheiro mijar, foi um cidadão consciencioso, higiênico e urbano: puxou a descarga. Cada descarga gastou em média 10 litros d'água. Ou seja, pra evacuar higienicamente os 3 litros q vc deve ingerir diariamente, vc pode gastar mais 120 litros d'água, num total de 123 litros consumidos por dia. Se os pecialistas dizem q o ideal é cada pessoa consumir entre 150 e 200 litros por dia, ¿que é q se deve fazer? ficar segurando?

Foi aí q nosso eustático humanista viu a solução. Qdo exigências sociais implausíveis conflitam com o bem-estar pessoal plausível, ¿qual vc acha q prevalece? O segundo, claro. O doutor vai beber seus 12 copos por dia, só pra ver sua urina limpa, e o resto do mundo q se esturrique.

O doutor pode tar soando como um egoísta insensível, mas pô, trata-se do doutor Plausível. ¿Vc acha q ele sacrificaria seu oceânico humanismo em prol próprio? Pensa bem: podem sair todos ganhando: se a água q vc bebe sai cristalina, ¿pra quê puxar a descarga? Ao mijar cristalino, o doutor já tá como se fosse puxando a descarga, reciclando a água da privada um copo de cada vez. Ao invés de beber 2 copos por dia e puxar a descarga 2 vezes, usando ao todo uns 20 litros, o doutor agora bebe 12 copos por dia, não puxa a descarga nenhuma vez e usa apenas uns 3 litros. Genial, não?

No fim das contas, não houve gargalhada. Mas uma campanha pra unir as duas recomendações não taria mal: "Economize água: mije." ou simplesmente:

ECONOMIJE.

02 julho 2010

De pau

Se tem um profissional q fica esperto qdo vai atender o Dr Plausível, é o dentista. Toda vez q ele marca hora pra seu costumeiro check-up odontológico qüinqüenal, o dentista tem q esconder as revistas na sala de espera. Pq se não, já viu, né? Nosso ebuliente doutor pega uma, digamos, Caras, descamba à dar risada, aí o paciente sendo atendido ouve, fica segurando a gargalhada e, qdo explode, lá se vai um canal.

Não é pq o doutor saiba de quem tá rindo. Vai folheando as revistas dizendo "Não conheço. (vira) Não conheço. (vira) Nunca vi mais gordo. (vira) Ignoro quem seja. (vira) DESconheço." &c &c. À cada três páginas, uma gargalhada.

Sesdias, o dentista se descuidou e o doutor achou uma Caras. Pra quê? Tem tanto logotipo passando papelão nessa revista, q o doutor äs vezes tem dó. Mas ri. Logo na primeira matéria, deu de cara com isto:


WTF? ¿Uma mulher de cotovelo pontudinho e roupa cafona dançando ao ar livre? Não. É "Luíza Brunet levando luxo à natureza". ¿Que é isso? título de fantasia do Clóvis Bornay?

HAHAHAHAHAHA

Mas a página ainda não deu tudo q tinha pra dar. Vejam só a legenda:


¿¡¿QUÊ?!?

HAHAHAHAHAHAHAHA

¿Que profissão será essa da golden brunette (!) em frente da Holed Stone? E 30 anos nessa atitude deve dar cotovelo-de-atleta, não? Aiaiaiai.

Bom, é página pra cá, página pra lá... Aparece uma matéria com um tal de nãoseiquê Aguiar, posando com sua família lovely pruns fotógrafos q marcaram hora em sua mansarda, onde a família de vez em qdo se empanturra de carne crua e fria:


HAHAHAHAHAHAHAHA

(¿Pra que tanta risada, home? Só pode ser inveja, né? Não tem outra explicação.)

E na mesma linha de hipoplausifotos – uma modalidade fotojornalística q, em vez de ilustrar um fato, revela uma mentira – tem mais esta:


Dessa aí não deu nem pra rir. Tão fofinhos, os dois rindo da piadinha infame do fotógrafo. ("A produção não autorizou abrir, então vai de guaraná mesmo, q vc tá precisando.")

(Mas que inveja, hein ô? Não tem outra explicação.)

A revista traz até uma página com gotas de sabedoria pra consumo popular. Por exemplo:

"Qualquer colegial sabe que as tagarelices, como o ar quente, sobem para o topo." (Scott Fitzgerald)

¿¡¿Hein?!? ¿Que catso quer dizer isso? E ¿será q o Scotty realmente quis dizer essa coisa q o editor da página achou q ele talvez pudesse tar dizendo? Claro q não, papelão. (Ele disse "For a statesman — any school child knows that hot air rises to the top.", q não vou nem me meter à traduzir; mas é uma tirada, não uma gota de sabedoria: hot air = bazófia, lero-lero. Ele quis dizer q, se vc for bem fanfarrão e contar bastante vantagem, vc chega ao topo em política.)

O preço de capa duma tal coleção de inanidades, de pseudo- hipo- peri- sub- des- e auto- promoções disfarçadas em "matérias" e "ensaios", de gente cafoneando o mundo, &c é R$8,90.

Já é engraçado q seja vendida e comprada. Mas ¿não é ainda mais engraçado q tenha preço? Tipo, o sujeito chega cedo na rodoviária ou aeroporto e pensa lá com seus botões, "Ah, tenho meia hora de espera. Vou comprar uma revista pra ver um monte de gente rindo da minha cara, promovendo produtos e serviços."

HAHAHAHAHAHAHAHAHA

E pra vc, fiel leitor, q leu esta gororoba até aqui, tem um presente pra tua variadíssima coleção de sorrisos da Xuxa:

28 junho 2010

Uriah Heep¹ pede emprego aos Irmãos Metralha

Enquanto passa longas horas ä espera q bata ä porta de seu luxuoso consultório na Av Paulista alguém q não seja estafeta, faxineiro ou porteiro, nosso evidente doutor äs vezes ouve rádio pela internet, äs vezes na CBN. Hoje, um tal de Max Gehringer, aconselhando um ouvinte sobre o q escrever numa carta de apresentação candidatando-se à um emprego, saiu-se com esta:

"Bom dia. Não estou enviando mil currículos para mil empresas. Estou enviando um só, para a Irmãos Metralha. Sei que pode parecer pretensão minha, mas pesquisei muito até encontrar uma empresa q oferece tudo para a minha carreira – uma empresa q vem crescendo 12% ao ano nos últimos 5 anos, e tem uma imagem sólida e respeitável no mercado. Por favor, conceda-me uma oportunidade para ser ouvido. Não quero tomar demais o seu tempo e agradeço sua atenção."

HAHAHAHAHAHA

Se o Dr Plausível fosse diretor duma empresa e recebesse uma carta de apresentação dessas, jogava no lixo sem nem ver o currículo. Já começou à desguarunfar a glote qdo ouviu "Sei que pode parecer pretensão minha &c", mas qdo a carta arrematou com "Por favor, conceda-me uma oportunidade para ser ouvido. Não quero tomar demais o seu tempo...", até veio o arquiteto do escritório acima perguntar qual era a graça. Ele ouviu o Max-conselho, e ficou ainda mais encafifado. ¿Cadê a hipoplausibilose? ¿Que alternativa nos daria o empregante doutor? À seguir, sua resposta.

O escritor imaginado da Max-carta, além de mentiroso, soa como o tipo de pessoa q finge servilismo e humildade só pra conseguir emprego, e não raciocina muito bem. Distância dessa gente. Por outro lado, não deve ser muito confiável um diretor q se deixaria levar por uma carta servil, lugar-comum e mal ajambrada como essa. Ele até evidenciaria tendências sádicas latentes. Distância dessa gente tbm. O próprio Max Gehringer inconscientemente demonstrou não ter respeito pela empresa prä qual imaginou enviar a carta: ao tentar uma piadinha, batizou a empresa de "Irmãos Metralha".

Na hora de decidir quem convidar à uma entrevista, o q tem q chamar atenção é um currículo comprovado duma pessoa q tá te tratando de igual pra igual, q tá apenas se colocando ä disposição pro escrutínio mais minucioso duma entrevista. Veja uma sugestão plausível:

"Caros Srs e Sras,
Vosso anúncio no Jornal de Notícias me interessou. A Empresa Tio Patinhas sempre me pareceu ter um perfil empresarial bem adequado pra receber minha contribuição, em benefício mútuo. Agradeço se considerarem meu currículo."

Se o candidato quiser chamar mais atenção, pode fazer um currículo multimídia – com fotos, documentos, gráficos, linques, &c. Passa a impressão de q ele gastou tempo e dinheiro, e usou raciocínio pra elaborar o currículo.

Qto mais o mundo empresarial se atola em sua própria espiral regida pela Lei Geral de Peter² (the Peter Principle), mais o doutor ri da sandice da industrialização do emprego, da exaltação da racionalização da mediocridade, da quantidade de 'DEs', 'DOs' e 'DAs' q o português exige entre um substantivo e outro.
________
1 Uriah Heep, personagem de C.Dickens
2 Lei Geral de Peter (après Laurence J. Peter): "Qqer idéia q dá certo será aplicada em contextos progressivamente mais exigentes até dar errado – mas aí o sistema já ficou implantado e só resta usar o jeito falho mesmo, até aparecer um melhor."

11 junho 2010

Chutebol

Nosso exportivo doutor casou com a mulher certa. Vejam sua definição de futebol:

"Noventa minutos em q quase nada dá certo."

Gol.

HAHAHAHAHAHA

08 junho 2010

Senta, q lá vem a História

À partir de agora, neste blogue:
• o artigo e o pronome ‘a’ continuarão sem acento: a, a;
• a preposição ‘a’ levará acento grave: à;
• a contração da preposição com o artigo levará trema: ä.

Fechou a porta.
Fechou-a bem.
Falou à todos.
Foi ä feira.


‘ä’ se pronuncia /àa/

Em “Maria foi à sua casa.” muitos leitores erroneamente verão uma contração, e em “João foi à seu escritório.” erroneamente verão um errortográfio, mas ambas frases tão coerentes com o exposto acima.

Inspirado pelo texto de Reginaldo Pujol Filho, soberbamente ilustrado nesta animação:

18 maio 2010

Hipermercado de hipérboles

É sempre supimpa ir às compras com nosso epifenomenal doutor. Tava lá ele no Pão de Açúcar (o mercado, não o morro), comprando umas lâmpida.

Caixa: ¿Cliente Mais?
Doutor: Não.
C: ¿Nota fiscal paulista?
D: Não.
C: Nesse caso, ¿posso pôr sua compra em nome do Hospital do Câncer?
D: Pode.
C: O Hospital do Câncer agradece. O senhor acaba de salvar uma vida.
D: Ãã? hahahahaHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAhahahahaha

05 maio 2010

O resgate dos gregos

Não, este texto não é sobre resgatar a economia da Grécia em crise.

Contrariamente ao q incontados crentes crêem, nosso eviscerante doutor não acha a Bíblia um documento totalmente idiota. Tem umas sacadas até legalzinhas. Por exemplo, João 1:1: "No princípio era o verbo." Faz sentido, né? A fala (o logos: palavra + razão = narrativa + raciocínio) é absolutamente indissociável do humano; sem ela não é possível realizar culturas, acessar as complexidades potenciais do humano ou gerar deuses.

Mas gente é fascinada por narrativas. Já por raciocínios, nem tanto. Numa roda de gente, a pessoa q expõe um raciocínio é interrompida a torto e direito, mas raramente interrompem alguém q tá contando uma história. Galileu fica ali tentando falar duma coisa super jóia q ele deduziu rolando umas bolinhas... aí o Juca interrompe pra contar uma piada, e os tronhos em volta arregalam os olhos, dão risada, começam a contar outras, e vira aquela meleca... Se vc gosta de atenção, conte histórias. Esse negócio de expor raciocínios é coisa de gente chata.

E aqui tamos nós, no ocidente: uma cultura q descende da Grécia – q 2500 anos atrás jorrava pensamentos originalíssimos, cálculos precisos, invenções assombrosas (pô, dá só uma olhada no Antikythera, pra vc ficar besta), uma curiosidade imensa, os primórdios de quase todas as idéias correntes hoje –, uma linha de raciocínio q foi INTERROMPIDA qdo da Judéia emergiram aqueles contadores de histórias divulgando um anedotário sobre um deus interessadíssimo em tua vida sexual, tuas opiniões e teu sangue. Duma hora pra outra, crer numa possível lorota incomprovável ficou trocentas vezes mais importante do q enxergar um fato escancarado. Pô, sacanagem, né? Os romanos se fantasiaram de gregos, reverberaram as narrativas judaicas, e batata: Era das Trevas e o escambau. Todos os crentes de hoje são vítimas de sua própria fraqueza por narrativas, seu tédio com raciocínios. Não por coincidência, o ocidente só começou a sair do mundo da fantasia qdo a Grécia antiga virou moda na Zoropa.

Contador de história quer ibope. O judaísmo e seus subprodutos – o cristianismo e o islamismo – tão aí o TEMPO TODO contando histórias, querendo atenção, reclamando audiência, "exigindo" prioridade... senão eles choram, esperneiam, fazem barulho, jogam bombas, tapam os ouvidos e cantam laraialará. E ¡ó anti-irênica ironia! não há evidência mais clara de nossa macaqueza do q esse fascínio pelo desenrolar dum drama.

Aliás, falando no desenrolar milenar dum drama, com a economia da Grécia pedindo arrego e o Goldman Sachs lucrando biliardariamente com a crise q eles mesmos ajudaram a criar, vai ter quem pense q este texto é sim sobre resgatar a economia da Grécia em crise, e o interprete como anti-semita.

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Vai tomar chá anti-hipoplausivirótico, meu.

30 abril 2010

Varetas e envelopes

Sesdias, li uma conversa na internet q começou qdo alguém perguntou quê dizer a uma criança de 3 anos qdo ela quer saber pra onde foi seu gatinho (q morreu), ou seu avozinho querido, q não visita mais (pq foi metralhado e esquartejado por comandar um massacre de inocentes na Bósnia), perguntas desse tipo.

Interessante, não? Pq a imaginação duma criança pode ser uma maravilha da natureza, mas o cérebro dela é terra fértil, q minhoca adora. Além disso, a minhoca – já viu, né – é um conhecido transmissor de hipoplausivírus. Responder plausivelmente às crianças curiosas é questão de saúde pública, e nosso ecúmeno doutor tem infinito respeito pelos pirralhos. Com crianças, ele é um poço de ternura: tem incontadas medalhas estaduais e nacionais, e foi o grande vencedor do 19° Festival Internacional de Ternura, realizado em 1991 em Antananarivo. Então, ¿quem mais além dele seria adequado pra nos ensinar como preparar uma criancinha pra viver sem esperranços post-mortem no século XXI – o século da cisão entre o saber e o crer?

Eu sempre vi a individualidade, o EU, não como uma coisa real mas como uma miragem fortuita e passageira dum feixe de eventos, como o quadrado q só se vê qdo se olha pra quatro varetas dum certo ângulo:
, q desaparece assim q as varetas mudam de lugar. Mas isso é abstrato demais pros moleques. O doutor faz melhor. Usando uma analogia descrita por Douglas Hofstadter em seu livro I Am a Strange Loop, ele pede à fedelha q segure um maço duns 100 envelopes deste tipo:

, apertando de olhos fechados o vértice do V, e diga o q sente. A resposta é sempre algo como "parece q tem uma bolinha no meio, uma bola de gude ou de metal". Faça vc mesmo o teste; vc vai ter a nítida impressão de q tem um bola dura no meio do maço de envelopes. O doutor então desfaz o maço pra mostrar q não tinha bolinha nenhuma ali: a impressão é causada pelo amontoamento de papel verticalmente ao V. Aí o doutor explica q o gatinho, o avô, o coelhinho decapitado começando a feder embaixo da caminha da menininha, eram todos como aquela bolinha no meio do maço, só q MUITO mais complicados: a bolinha tava ali e não tava ali ao mesmo tempo; aí o maço se desfez e não dá pra montar de novo, nunca mais.

A pirralhada nunca entende a analogia na primeira; mas sua atenção é curta: logo vão tar falando doutra coisa. Caso uma criança insista, o doutor explica os dois teoremas da incompletude de Gödel e suas conseqüências teleológicas. A explicação dura uns 15 anos, e fica tudo por isso mesmo qdo a pirralha atinge a maioridade penal.

Só mesmo um cérebro imerso numa sopa de hipoplausivírus não vê a profunda e absurda maldade expedientista em fazer uma criança acreditar q seu EU sobreviverá a sua morte pra ser punida ou recompensada eternamente dependendo de seus atos infantis, suas inépcias sociais e seus impulsos naturais.

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Adendo
Pra consumo infantil, a analogia do Hofstadter pode ser contextualizada um pouquinho. Se a pirralha aperta o maço de envelopes, sente a bolinha, e aí vc esparrama os envelopes e diz q na verdade nunca houve bolinha alguma, e é isso q vai acontecer qdo ela morrer, então 10 contra 1 q ela abre o berreiro. Mas tem uma saída elegante: antes de lhe dar o maço, vc escreve em cada envelope o nome da criança; aí, depois de separá-los (qdo ela "morre"), vc risca o nome dela e vcs dois juntos endereçam cada envelope a uma coisa diferente ou a uma pessoa diferente (tanto quem ela conheça como quem não conheça): "Máicon", "Gyslaine", "Pato", "Árvore", "Pedra", &c. Qdo ela morrer, uma parte do q a formou volta à natureza, outra parte continua em outras pessoas. E vira uma brincadeira de escrever e desenhar em papel. ¡Que doces momentos....!

Claro, uma criança de 3 anos minimamente inteligente vai questionar a predestinação implícita na analogia, o uso duma bolinha real como significante duma imaginária e o nihilismo de ter envelopes vazios pra q a analogia dê certo. Nesse caso, vc tem duas opções: ou lhe dá arsênico pra ela deixar de encher o saco, ou lhe dá vitaminas pra ela ficar bem forte e, qdo crescer, encher o saco do mundo todo.

18 abril 2010

A propos

Contrariamente ao q pretendem todos os religiosos, a mediunidade não é um clame circunscrito ao espiritismo. Praticamente TODA religião tem médiuns. ¿Que outra coisa são os padres, sacerdotes, mulás, dervixes, rabinos, monges, druidas, xamãs, dalai-lamas, presbíteros, capelãos, zacos, abdalás, pais-de-santo, pastores, agapetos, imames, alfaquis, bonzos e pajés q "entendem" suas religiões melhor do q os tronhos q os seguem, e podem assim melhor "interpretar" o q "dizem" ou "disseram" seus deuses?

Como diz o Pat Condell em seu último vídeo no YouTube:

"A number of people have kindly offered to answer any question I may have about the Koran. I can't help but wonder why I should have any questions if it's the pure word of God. Is God not capable of expressing himself clearly and directly without ambiguity...?"

Assim como se fala de "poder mediúnico", tbm se poderia falar de "poder bíblico", "poder korânico", "poder dísneyco": a capacidade q os sacerdotes afirmam ter e os tronhos a eles atribuem de interpretar "sinais" e símbolos. Os médiuns têm poder, sim, mas é poder político. Noutras palavras, lábia.

Ou seja, a ambigüidade q o Condell condena é JUSTAMENTE a chave. Em religião, qqer transparência congruente é anátema, e os religiosos fogem dela como o diabo da cruz.

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(1) ¿Notou a palavra 'clame' na primeira frase? Pois é. A partir de agora, essa palavra entra no vocabulário português, significando a mesma coisa q o inglês 'claim' – q antes não tinha correspondente na Flor do Lácio.
(2) As reticências na pergunta do Pat Condell: "...even in a crass and unsubtle language like English?" (pq lhe disseram q, pra ser compreendido, o Korão tem q ser lido em árabe...)

07 abril 2010

Tão óbvio, não?

Sesdias, um ilustre leitor deste blogue disse "não há razões para se duvidar da sinceridade e honestidade do Chico [Xavier]."

Taqui uma:





Note o dedinho. Faça o teste.

04 abril 2010

Paz? Qual?

Nosso extremoso doutor há várias décadas prega no deserto da incompreensão interlingüística – o vasto ermo na travessia entre uma língua e outra, em q a semântica morre na implacável seca hipoplausivirótica. Tradutor ruim é uma das mais pestilentas espécies da ecologia humana: ignorante de sua própria infecção, pode infectar milhares, milhões, bilhões de outros invacinados. Muitos destes últimos, tbm ignorantes do vírus q lhes gororoba o cérebro, adicionam suas próprias hipoplausófias locais, contribuindo ainda mais pro amorfismo geral. Todo retrato vira o do menino choroso; toda história vira comédia romântica; toda notícia vira lição de vida.

Sendo hoje Páscoa, o Dr Plausível sai em defesa da Bíblia, tadinha, um dos textos mais deturpados por tradutores infectados e tendenciosos, e pelos seguidores mesmos das traduções, q as emendam pra acomodar suas próprias nebulosidades.

Veja por exemplo a versão de Eclesiastes 3:1-8 abaixo, com toda a cara de ter sido traduzida diretamente do inglês, essa língua tão bíblica qto o Pólo Norte:

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer;
    tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
Tempo de matar, e tempo de curar;
    tempo de derrubar, e tempo de edificar;
Tempo de chorar, e tempo de rir;
    tempo de prantear, e tempo de dançar;
Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras;
    tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
Tempo de buscar, e tempo de perder;
    tempo de guardar, e tempo de lançar fora;
Tempo de rasgar, e tempo de coser;
    tempo de estar calado, e tempo de falar;
Tempo de amar, e tempo de odiar;
    tempo de guerra, e tempo de paz.


Como se vê, já tem várias coisas q revisor bom mandaria de volta. ¿Tempo de arrancar o q se plantou? ¿Tempo de afastar-se de abraçar? ¿Tempo de perder? E ¿que hitória é essa de "tempo disto, tempo daquilo"? isso lá é português? E, pior, ¿que é essa coisa de "espalhar e juntar pedras"? O detector básico de hipoplausivírus já tocou o alarme aí. Mas antes de correjir os hérros vejamos a edulcoração q algum amador de olhos cor-de-rosa perpetrou numa versão q circula pela interneta:

Em vez de
Tempo de matar, e tempo de curar
colocou
Tempo de sentir saudade, e tempo de esquecer

Em vez de
Tempo de amar, e tempo de odiar
colocou
Tempo de amar, e tempo de sofrer

¿Não é de esbugalhar os olhos? Gugla, q vc acha.

Com o detector já chegando no "perigo: gargalhada", o doutor me encomendou uma nova versão, q foi por ele aprovada pra consumo judaico-cristão:

Tem hora pra tudo, e uma época pra cada atividade sob o céu:

Tem hora pra nascer e hora pra morrer,
hora pra plantar e hora pra capinar,
hora pra matar/abater e hora pra tratar,
(falando de animais de criação)
hora pra demolir e hora pra construir,

hora pra chorar e hora pra rir,
hora pra velar
(os mortos) e hora pra dançar,
hora pra apedrejar e hora pra juntar pedras,
hora pra abraçar e hora pra se afastar,

hora pra procurar e hora pra desistir,
hora pra guardar e hora pra jogar fora,
hora pra rasgar e hora pra costurar,

hora pra ficar quieto e hora pra falar,
hora pra amar e hora pra odiar,
hora prà guerra e hora prà paz.


De repente tudo fica tão mais claro, né? Eliminei toda aquela grandiloqüência troncha pra dizer coisas sem sentido... Note, nas versões tronhas, a edulcoração sistemática de palavras desagradáveis:

• MATAR > "sentir saudade"
• CAPINAR > "colher" (capinar = arrancar ervas daninhas)
• VELAR OS MORTOS > "lamentar"
• APEDREJAR > "espalhar pedras"
• DESISTIR > "perder"
• ODIAR > "sofrer"

Aposto q teu olho direito pulou qdo leu "apedrejar". Mas é a única tradução plausível. O texto já falou em demolir e construir, ¿por que falaria disso de novo? Outra possibilidade aventada seria ver 'pedras' como 'sementes', com 'espalhar pedras' = 'semear'; mas o texto já falou em plantar. Só resta o sentido de 'jogar pedras' = 'apedrejar'. Por outro lado, note como, após o preâmbulo, o poema é organizado como um soneto – por coincidência, é claro (o soneto como forma poética não existia, e separei os versos em estrofes artificialmente pra demonstrar a plausibilidade de 'apedrejar'):

• após o primeiro verso (q dá uma geral na vida: nascer e morrer) a primeira "estrofe" fala de administração duma propriedade rural
• a segunda fala de afecções pessoais e sociais
• a terceira fala de coisas materiais
• a quarta fala de harmonia e conflitos

Assim, pra manter o tom geral da coisa, o 'apedrejar' da segunda "estrofe" pode tar no sentido figurado de 'punir'. Igualmente, 'juntar pedras' pode ser 'recolher pedras', no sentido figurado ou de 'se desculpar' ou de 'relevar'; assim, eliminando a metáfora – mas ainda assim sacrificando o sentido original pra agradar às sensibilidades modernas –, a segunda estrofe ficaria:

hora pra chorar e hora pra rir,
hora pra velar e hora pra dançar,
hora pra punir e hora pra relevar,
hora pra abraçar e hora pra se afastar,


Muito melhor, hem? admite. Não é à toa q cobro os olhos da cara. (Mesmo assim, não fiquei contente. Pra apedrejar é preciso juntar pedras, não? Hm.)

Mas resta a pergunta: ¿não era pra ser "a palavra infalível de Deus"? ¿Que é q os crentes tão seguindo se deturpam as palavras e jogam as difíceis e as desagradáveis embaixo do tapete?

27 março 2010

Psicografado de outro blogue

Olha o q a patroa escreveu:

Sabem o que eu adoro? Esses médiuns que juntam platéia e ficam "estou ouvindo um ême... alguma coisa com ême... alguém aqui tem um ente querido, pode ser tio, pai, avô, filho, sobrinho, cachorro cujo nome começava com ême?". E uma senhora levanta emocionada "meu marido, Manovitch!" E o que ele ouviu foi o ême, não o itch.

HAHAHAHAHA

"Estou ouvindo um bê, um bê..." "Minha avozinha Bócia!" Novamente, não o ó. Mas ele acertou! "Isso, Bócia. Ela está me dizendo que faleceu com algum tipo de dor... uma dor no corpo... eu vejo o peito... talvez o coração, o pulmão..."

HAHAHAHAHAHA

Sabem o que eu adoro mais? Que, enquanto isso, haja outros médiuns que psicografam cartas e livros inteiros sem nenhum problema de fonética espiritual, chuvisco na imagem ou linha cruzada.

HAHAHAHAHAHAHA

E sabem o que eu adoro hors-concours? Que os médiuns do "estou ouvindo um ême" embolsem muito mais dinheiro que os outros com seu talento. Esse tipo de mediunidade paga mil vezes mais por caractere.

HAHAHAHAHAHAHA

Casei com a mulher certa.

23 março 2010

Ironies Inc. / Ironias S.A.

Trecho de Network. Na cena: Peter Finch e Ned Beatty; texto1 de Paddy Chayefsky.



Nosso euribático doutor tem tanta coisa pra se divertir nessa cena q ele nem sabe por onde começar.

Notem:
• a comparativa chinfrinice do português pra expressar idéias fortes em voz estentórea;
• q a estrutura do português tolhe a expressão de crescendos dramáticos de adjetivos em sintagmas nominais;
• q ela tolhe tbm a sucintez de sintagmas nominais só com substantivos;
• como as palavras portuguesas perdem expressividade com o deslocamento do acento tônico da raiz pro sufixo;
• q Network é de 1976; das 7 grandes firmas q o filme achou dignas de menção, só resta a Exxon entre as 10 maiores no mundo, mais a AT&T entre as 10 maiores nos Euá2;
• q agora em 2010 partes desse texto parecem tão ingênuas...; dizer q não existem povos é como dizer q não existe ferro: ambos são matérias-primas pros lucros empresariais; assim como fazem com ferro, as empresas pegam um povo e o derretem, fundem, forjam, moldam, vendem, usam, fadigam e sucateiam;
• q talvez algum dia não haja mais "nações e povos" no sentido usado aí, mas sempre haverá línguas;
• a leis intrínsecas (bylaws) q regem o comércio podem mudar duma hora pra outra, mas as leis q regem a cognição lingüística levam milhões de anos pra mudar.

Se vc quer vida longa pro português, mude-o: acÊntue as rÁizes, invEnte palAvras, sÍmplize a grÁmatica. Se não, já viu, né? Aliás, tá vendo.

Claro q é melhor deixar tudo como tá. O Dr Plausível não é bobo de se meter com gente armada.

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(1) Claro q sei q 'meddle with' não é 'se meter com'; e q 'price/cost' não é 'custo/benefício'; e outros detalhezinhos. Faço minhas traduções perguntando: "¿Como seria esse texto se tivesse sido originalmente escrito em português?"

(2)Entre as 100 maiores do mundo: Exxon (2ª), AT&T (29ª), IBM (45ª),
Entre as 100 maiores dos Euá: Exxon (1ª), AT&T (8ª), IBM (15ª), Dow (39ª), DuPont (77ª).
(Fonte.)

16 março 2010

Promoção de papelões

Tem dias em q nosso ebúrneo doutor já acorda dando risada. É verdade q esse fenômeno é facilitado por ele só acordar às 10 da manhã, qdo já se fez muita besteira no mundo. Mas mesmo assim, né, ¡10 da manhã...! O pessoal podia esperar até a tarde.

Desta vez foi pq uma conhecida ligou contando q é assinante do Estado e hoje entregaram o jornal dentro dum saco plástico junto com a edição da Folha, q ela não assina, numa promoção do Banco Santander. E o vizinho, q assina a Folha, recebeu tbm o Estado. O saco dizia:

"TOMAR DECISÕES LEVANDO EM CONTA MAIS PONTOS DE VISTA."

Ããã... supostamente querendo dizer q se vc lê esses dois jornais, vc pode tomar decisões mais abalizadas.

É mesmo, né, o Estado e a Folha são jornais SUPER diferentes. Nada a ver um com o outro.

HAHAHAHAHAHA

Se era pra ter pontos de vista diferentes, ¿por que não colocaram junto com a Folha o Libération ou o Guardian? Claro q não. Não pensaram nem n'El País, q é espanhol como o Santander.

Aliás, pô, se é pra tomar decisões levando em conta mais pontos de vista, então essa propaganda deveria promover tbm, sei lá, o BMG, o Banco Fibra ou o Banco Daycoval, né?

Leve em conta mais pontos de vista. Pergunte a um diretor do Itaú o q ele acha do Santander.

Hoje, aumentou consideravelmente o volume de lixo na cidade.

Cada uma, viu.

11 março 2010

Assunto intratável, proposta utópica, texto chato

Nosso enfático doutor não se mete na vida dos outros e tá longe de aconselhar qqer um a não ler traduções. Mas... tampouco se priva de aventar q a dependência brasileira de traduções é quase como uma placa de Petri prà disseminação do hipoplausivírus no populacho. Ser diariamente bombardeado por non-sequiturs, inconsistências, ilogicidades e birutices em filmes, livros, jornais e revistas não deve ser a melhor maneira de desenvolver o intelecto. Dá dó ver qta burraldice é enfiada na cachola do brasileiro médio q tá ali inocentemente tentando se divertir, se culturar ou se informar.

A idéia (proposta no texto anterior) de comitês produzindo traduções oficiais dos clássicos literários, respaldadas pelo Estado, jamais vingará, claro. Qdo muito, uma ou outra editora há de entender q suas traduções deveriam funcionar como funcionam artigos em revistas científicas: um cientista ou uma equipe de cientistas envia um artigo a uma revista e esta – q não é trouxa de publicar qqer coisa – envia o artigo pra ser revisado confidencialmente por vários outros cientistas; estes propõem mudanças ou até reprovam o artigo completamente, e ele só é publicado com o aval de todos.

Mas além dos grandes clássicos, há outro campo infestado de traduções deficientes – um campo q bem poderia oficializar suas traduções: os filmes. Do jeito q tá, é um caos. O filme passa nos cinemas com legendas. Aí uma emissora de tv aberta decide transmiti-lo e encomenda uma tradução pra dublagem. Meses depois, algum canal a cabo decide o mesmo e encomenda uma tradução pra legendagem. Aí outra emissora aberta quer passar o filme e encomenda mais uma legendagem. Aí ele é (ou era) lançado em vídeo e mais uma legendagem é feita. Aí é lançado em dvd, e mais uma. Aí aparece uma edição especial do filme com mais outra.

E cada nova legendagem ou dublagem tem sua própria plantação de abobrinhas.

Pensem no estúdio ou diretor ou produtor dum filme. Ele arregimenta centenas e centenas dos melhores profissionais diretos ou indiretos pra cuidar dos cenários, figurinos, equipamentos, maquiagem, sotaques, trilha sonora, efeitos especiais, &c &c &c, durante meses a fio, pra fazer um filme todo bonitinho; aí manda o filme pro Brasil e ele é traduzido numa semana por UM tradutor mal pago e metido a sabido, qdo muito tbm UM revisor pior pago, e os dois juntos se entregam a passar apenas a idéia principal dos diálogos, espatifando no caminho trocentos outros detalhes q vários profissionais antes deles se esmeraram pra deixar verossímil, q os atores deram o melhor de si pra enunciar convincentemente, q os técnicos de áudio fizeram faculdade pra gravar claramente. Claro q há tradutores excelentes; eu mesmo conheço dois tradutores absolutamente geniais (e q "coincidentemente" não se entregam às imbecilidades da NoCu; mas isso é outra história). Todos sabemos q são raros, tal como era raro achar água limpa 200 anos atrás. Num país culturalmente de joelhos como este, a qualidade da tradução deveria ser vigiada e regulamentada como questão de saúde mental pública.

E se vc fosse o produtor, ¿não iria querer controlar tbm as traduções? Todo lançamento de filme no Brasil – exatamente como faz a Microsoft com a tradução de seus programas – deveria ter a tradução afiançada pelo produtor original, bem paga por ele, com dublagem e legendagem feitas pela mesma equipe, sujeitas a melhorias futuras, e com a proibição de exibição com qqer outra tradução. O filme e sua tradução deveriam formar um pacote único.

¿Será q nosso exímio humanista tá exagerando? Acho q não. Agora vem a parte chata deste texto.

ESTUDO DE CASO:
Um bom exemplo do pobrema é My Fair Lady, baseado na peça Pygmalion, de G.B.Shaw. Uma das peças mais originais dum gênio teatral inglês foi musicada por dois gênios da Broadway; o musical foi transformado em filme por um grande diretor num dos maiores estúdios de Hollywood com um elenco de primeira; a produção custou 17 milhões de dólares e tomou 8-9 meses de intenso trabalho; ganhou 8 Oscars. No Brasil, virou quase uma rotina despedaçar o texto e seus inúmeros detalhes. Dentre umas dez ou mais traduções diferentes dessa peça ou filme, analisemos uma tradução de Pygmalion e quatro legendagens diferentes de My Fair Lady. Veja os códigos q vou usar:

MF: Tradução da peça, publicada em livro. A capa diz "Tradução de Millôr Fernandes". A contracapa faz esta hilariante declaração: "Neste livro Millôr Fernandes faz muito mais do que uma tradução. Enfrentando a enorme complexidade da obra de Shaw, Millôr adapta e recria, conseguindo a proeza de transmitir na íntegra o sabor e a genialidade do texto original." Sim, conseguiu a proeza de adaptar e recriar tudo aquilo no original cuja complexidade não entendeu. HAHAHAHA Excelente humorista, sofrível tradutor.
VID: Tradução pro videocassete.
TCN: Tradução pro Telecine, da tv a cabo.
DVD1: A primeira tradução pra dvd.
DVD2: A edição atual do dvd. A melhor tradução até agora. O tradutor, embora um pouquinho duro nas juntas, é inteligente e lúcido, e tem um amplo repertório em português. Mas MESMO assim não entendeu várias coisas no original.

Seguem-se APENAS os pontos mais baixos dessas traduções. É uma pequena amostra do problema – não só pq inclue apenas uns 30 minutos dum filme de 2½ horas, como tbm pq inclue apenas os erros mais sérios, exceto os da versão DVD2, da qual resolvi incluir *todos* os erros. Dou:

o original em fonte normal
a tradução com o problema em negrito
uma correção/sugestão minha em itálico
(uma breve explicação entre parênteses)

Omiti as inúmeras gargalhadas do doutor.

(prefácio) The English have no respect for their language, and will not teach their children to speak it.
MF: Os ingleses não respeitam sua língua, e não sou eu quem vou ensiná-la a seus filhos.
...e não ensinam seus filhos a falá-la.
(¿Que catso tava pensando o tradutor qdo se saiu com essa? ¿Que tem a ver com G.B.Shaw?)

(prefácio) ...he was squeezed into something called a Readership of phonetics there.
MF: ...ele acabou sendo lá espremido para uma coisa chamada leitura de fonética.
cadeira/curso de fonética
(Aqui o livro deveria ter incluído uma nota de rodapé, explicando o q é um 'readership' numa universidade britânica; um 'reader' é tipo um 'professor adjunto'.)

(prefácio) ...his pupils ...swore by him; but nothing could bring the man himself into any sort of compliance with the university...
MF: ...todos absolutamente dedicados a ele; mas nada podia fazer com que o homem em si se comprometesse em qualquer grau com a universidade...
...nada conseguiu fazer com q ele próprio aceitasse as regras e costumes da universidade...
(A questão posta é q Henry Sweet era indomável, não q era inconfiável.)

Mãe: What can Freddy be doing all this time? He's been gone twenty minutes.
Filha: Not so long. But he ought to have got us a cab by this.
MF: -Onde é que Freddy se meteu esse tempo todo? Saiu daqui há mais de meia hora.
-Que é isso? Não tem nem dez minutos. Está arranjando o táxi.
- (...) Saiu daqui já faz vinte minutos.
-Nem tanto. Mas já deveria ter arranjado um táxi.

(A mãe já sabe q Freddy foi buscar um táxi; não faz sentido a filha informá-la disso.)

(instrução de cena) He is a young man of twenty ... very wet around the ankles.
MF: É um rapaz de vinte anos, já com acentuada gordura na cintura.
...com a barra da calça toda molhada.
(A primeira cena se passa durante uma chuvarada, e a instrução diz como o personagem deve subir ao palco.)

Pickering: I'm afraid not. It is worse than before.
VID: Acho que não, está pior que no outono.
...está pior do q antes.
(O tradutor tirou o texto de ouvido, e entendeu "than in the Fall".)

Liza: I can change half-a-crown. Take this for tuppence.
DVD2: Eu troco meia coroa pro senhor. Leva essa, só dois centavo.
...Leva esta por dois pence.
(A tradução ignorou o sistema monetário britânico da época. Essa é uma mania relativamente recente de tradutor: fazer a conversão monetária.)

Liza: I'm a respectable girl, so help me.
DVD1: Eu sou uma garota de respeito, ajude-me.
...meu Deus.
("So help me" é uma contração de "so help me God" ou "swelp me God": valha-me Deus.)

Homem: You be careful: give him a flower for it.
DVD2: É melhor tomar cuidado ou até mesmo lhe dar uma flor.
Cuidado: entrega um flor pra ele.

Liza: Oh, sir, don't let him charge me, you dunno what it means to me.
TCN: Não façam queixa! Sabem o q acontece.
Seu moço, não deixa ele me autuar. É muito importante pra mim.
(O 'it' em "what it means to me" se refere a sua liberdade de vender flores. Em português, fica infra-subentendido.)

Liza: They'll take away me character and drive me on the streets for speaking to gentlemen.
VID: Não fiz nada, falem com o cavalheiro.
DVD2: Vão manchar minha honra e me largar na rua só por falar com cavalheiros.
Vão me tirar minhas referências e me obrigar a mendigar, só por ter falado com gente fina.
(Um 'character' era mais ou menos o q no Brasil se chama de 'referências', só q oficial, e permitia aos pobres trabalharem na rua sem risco de serem presos por vadiagem.)

Homem: It's all right: he's a gentleman: look at his boots.
MF: Ele quer te ajudar, ouve ele. É um doutor, não tá vendo? Olha só as bota dele.
Não tem problema. Ele é um grão-fino.
(Higgins não quer ajudar ninguém, nunca. E sim, eu sei a NoCu diz q é 'grã-fino'; mas o personagem não saberia.)

Liza: On my Bible oath, I never spoke a word.
VID: Não sou imbecil, não disse nada.
DVD2: Garanto, nunca falei nada de mau.
Juro por Deus q eu não disse nada de mais.
(Todo mundo acha q 'never' quer dizer 'nunca'; na verdade, quer dizer 'em nenhum momento'. "I never saw him yesterday." quer dizer "Não o vi em nenhum momento ontem.")

Homem: Blimey, he's a blooming busybody.
VID: Credo, isso daria um negócio e tanto.
Credo, esse cara é um enxerido da peste.

Liza: Let him say what he likes. I don't want to have no truck with him.
MF: Deixa ele falar o que bem quiser – eu não quero é encrenca.
Não quero nem saber desse cara.

Pic: May I ask, sir, do you do this for your living at a music hall?
Higgins: I've thought of that. Perhaps I shall some day.
MF: Sabe que eu nunca pensei nisso? Mas não é uma má idéia.
Já pensei nisso. Talvez faça, um dia.
(Senso de humor, please.)

Pic: Is there a living in that?
Hig: Oh, yes. Quite a fat one.
DVD: -Serve para alguma coisa?
-Sim.
-Dá pra viver disso?
-Ah, sim. Fartamente.

(Esse é exatamente um dos pontos q G.B.Shaw tava frisando nessa peça.)

Hig: Woman! Cease this detestable boohooing instantly; or else seek the shelter of some other place of worship.
MF: Ô mulher, pára com essa choradeira estúpida, pelo amor de Deus! Ou então vai chorar noutro abrigo, noutro altar, noutro diabo que te carregue.
Mulher, pare com essa choradeira insuportável agora mesmo, ou então vá buscar abrigo em outro templo.
(A cena inicial se passa no pórtico da igreja de São Paulo, em Londres, durante uma chuvarada.)

Hig: Remember that you're a human being with ... the divine gift of articulate speech.
TCN: Lembre-se de q é um ser humano com ... o dom divino da palavra bem pronunciada.
...o dom divino da fala.

Hig: ...don't sit there crooning like a bilious pigeon.
MF: ...não fica grunhindo como um porco que acabaram de castrar.
VID: Não arrulhe como um pombo da Bíblia.
...não fique aí resmungando tal como uma pomba irritada.

Hig: I could pass you off as the Queen of Sheba.
DVD: Faria você passar pela rainha de Sheba.
DVD2: Poderia fazer com que a tomassem pela rainha de Sheba.
Eu conseguiria fazer vc parecer a rainha de Sabá.

Liza: You ought to be stuffed with nails, you ought! Take the whole blooming basket for sixpence.
MF: U sinhô dirvia sê rechiado de chumbu dirritido. (...)
DVD1:Você deve ter um coração de pedra, deve sim! (...)
DVD2: (...) Leva a porcaria da cesta por seis centavos!
Seu mão-de-vaca, pão-duro, unha-de-fome! Leva a cesta inteira por seis pence.
(Liza tá acusando Higgins de sovinice; mas a frase dela é farsesca e exagerada.)

Homem: The missus wants to open up the castle in Capri.
DVD2: A senhorita quer construir um castelo, em Capri.
A madame quer passar o inverno em seu castelo em Capri.
(A madame supostamente já teria o castelo. Durante o resto do ano, ele ficaria desocupado e fechado.)

Liza: Lots of coal making lots of heat.
DVD2: Montes de carvão no fogão
Montes de carvão pra me aquecer.
(Nada a ver com cozinha.)

Liza: I would never budge till spring crept over me window-sill.
TCN: Eu não me mexeria até a primavera, debruçada no parapeito da janela.
DVD2: Sem nem um dedo mexer até a primavera, pendurada na janela.
Eu não me mexeria até a primavera entrar pela janela.
(Liza tá se imaginando confortavelmente instalada numa poltrona durante o inverno.)

Pic: Must I? I'm quite done up for one morning.
DVD2: Será preciso? Acho que estou bastante confuso para uma só manhã.
Preciso mesmo? Já tou muito cansado / Já foi demais pra uma manhã.

Hig: Oh, that's all right, Mrs. Pearce. Has she an interesting accent?
Mrs Pearce: Oh, something dreadful, sir, really. I don't know how you can take an interest in it.
MF: -Oh, está tudo bem, madame Pearce. É engraçada, a pronúncia dela?
-Uma coisa verdadeiramente horrorosa, para o meu ouvido. O que significa que o senhor vai achar maravilhoso.
Uma coisa pavorosa. Mesmo. Não sei como o sr. pode se interessar por essas coisas.
(Ninguém chamaria a própria empregada/governanta de 'madame'. Além disso, MF entendeu Dª. Pearce exatamente errado.)

MsP: I should've sent her away, only I thought perhaps you wanted her to talk into your machines.
VID: Deveria tê-la mandado embora (...)
TCN: Devia tê-la despachado (...)
DVD1: Eu devia tê-la mandado embora (...)
DVD2: Deveria tê-la dispensado, mas pensei que, talvez o senhor quisesse fazê-la falar na sua máquina.
Eu a teria mandado embora (...)
(A rigor, shall/should é a 1ª pessoa de will/would; a linguagem de Dª. Pearce é super formal, e ela fala ãã... "corretamente".)

Hig: ...and then we'll get her on the phonograph so that we can turn her on whenever we want.
VID: ...e, depois, para o fonógrafo para poder transformá-la no que quiser.
...ligá-la qdo quisermos.

Liza: Oh, we are proud. Well, he ain't above giving lessons, not him. I heard him say so.
DVD1: Estamos orgulhosos. Bem, ele pode ensinar. Eu ouvi ele dizer isso.
Oh, que nariz empinado. Mas ele não é tão fino q não possa dar aulas. Ele mesmo disse.

Hig: Should we ask this baggage to sit down?
Liza: I won't be called a baggage when I've offered to pay like any lady.
MF: Num mi chama di troxa, não. Eu num qüero. Eu poussu pargá como quarqué madama.
¿Por que me chama de mala se tou querendo pagar q nem qqer madame?
(A entonação meio chorosa de Liza ao dizer isso aceita a transformação pruma pergunta.)

Liza: I thought you'd come off it for a chance of getting back a bit of what you chucked at me last night. You'd had a drop in, hadn't you, eh?
VID: (...) Está interessado, não?
TCN: (...) Q golpe de sorte, não?
DVD1: Pensei que você não me daria a chance de lhe devolver um pouco do que você atirou em mim, ontem. Agora eu te peguei, hein?
DVD2: (...) Já ficou mais interessado, hein?
Eu sabia q vc ia deixar de manha pra tentar reaver um pouco do dinheiro q me deu ontem. Vc tava meio mamado, ¿não tava?

Hig: [peremptorily] Sit down.
Liza: If you're going to make a compliment of it...
VID: Esqueceu de me cumprimentar.
Se vc fosse mais educado...
(Liza tá sendo um pouco sarcástica aí.)

Liza: A lady friend of mine gets French lessons for eighteenpence an hour from a real French gentleman.
DVD2: Uma amiga minha faz aula de francês e paga 18 centavos por hora para um francês de verdade.
Uma amiga minha tem aula de francês com um francês legítimo e paga só 18 pence a hora.
(A estrutura do original é "gets lessons from somebody", mas o tradutor estruturou como "paga dinheiro pra alguém", criando uma confusão entre 'francês' a língua e 'francês' o professor.)

Hig: Remember: that's your handkerchief; and that's your sleeve. Don't mistake the one for the other if you wish to become a lady in a shop.
MsP: It's no use talking to her like that, Mr. Higgins: she doesn't understand you. Besides, you're quite wrong: she doesn't do it that way at all.
MF: Além disso, o senhor está completamente enganado: ela sabe usar um lenço muito bem.
Além disso, o sr. errou aí: não é assim q ela assoa o nariz.
(Dª. Pearce quer dizer q Liza não limpa o nariz na manga: ela assoa o nariz com o dedo, espirrando a meleca no chão.)

Pic: You're certainly not going to turn her head with flattery, Higgins.
MsP: Oh, don't say that, sir: there's more ways than one of turning a girl's head; and nobody can do it better than Mr. Higgins, though he may not always mean it.
MF: -Acho que com essa espécie de lisonjas, você não vai mudar o comportamento dela, Higgins.
-Não aposte nisso, coronel. Ninguém sabe ser mais lisonjeiro do que o professor, mesmo quando faz tudo ao contrário.
-A moça certamente não vai ficar fascinada com tuas lisonjas.
- (...) Há muitas maneiras diferentes de fascinar uma moça; e ninguém consegue fazer isso melhor do q o sr. Higgins, embora nem sempre seja essa sua intenção.

(Dª. Pearce quer dizer q Liza corre perigo de se apaixonar por Higgins, até com ele tratando-a mal.)

Hig: What is life but a series of inspired follies?
MF: Que é a vida senão uma tentativa de organizar a loucura?
¿Que é a vida senão uma série de loucuras inspiradas?
(Aqui, foi Higgins q MF entendeu exatamente errado.)

Pic: What about your boast that you could pass her off as a duchess at the Embassy ball?
DVD2: O que me diz de sua aposta, de que poderia fazê-la passar por duquesa no baile da embaixada?
...bravata...
(A aposta não surgiu ainda; e quem faz é Pickering, não Higgins.)

Hig: We want none of your slum prudery here, young woman.
DVD1: Não queremos aqui o seu palavreado miserável, mocinha.
...puritanismo de favela...

Hig: What's the matter?
MsP: Well, the matter is, sir, that you can't take a girl up like that as if you were picking up a pebble on the beach.
MF: -O que foi que eu fiz?
-Bom, professor, acho que não se deve tratar uma moça sensível como essa como quem chuta uma bola de papel na rua.
-Qual é o problema?
-O problema é q não se pode catar um moça assim, como se ela fosse uma pedrinha na rua.

("Uma pedrinha na praia" seria entendido diferentemente no Brasil; é sabido q as praias inglesas têm mais pedrinhas do q areia.)

MsP: And what is to become of her when you've finished your teaching? You must look ahead a little.
Hig: What's to become of her if I leave her in the gutter? Tell me that, Mrs. Pearce.
MsP: That's her own business, not yours, Mr. Higgins.
Hig: Well, when I've done with her, we can throw her back into the gutter; and then it will be her own business again; so that's all right.
MF: -E quando o senhor terminar o curso, o que será feito dela? Acho que devemos prever isso.
-A senhora já previu o que vai acontecer com ela se eu a deixar na sarjeta? Me diga, madame Pearce.
-Isso não é responsabilidade sua, me parece.
-Bem, quando terminarmos as lições só temos uma coisa a fazer: jogá-la de volta na sarjeta. Também não será responsabilidade minha, me parece.
• (...) -O sr. precisa pensar no futuro.
(...)
-Isso é problema dela, não seu, sr. Higgins.
-Bom, qdo eu terminar com ela, podemos jogá-la de volta à sarjeta, e aí será problema dela novamente; então dá na mesma.


Hig: ...do any of us understand what we are doing? If we did, would we ever do it?
Pic: Very clever, Higgins; but not sound sense.
MF: Muito interessante, Higgins, mas não no presente momento.
Muito esperto, Higgins; mas não muito sensato.

Liza: I won't let nobody wallop me.
VID: Não deixarei ninguém me embrulhar.
Não vou deixar ninguém me surrar.
(Liza jamais diria "não deixarei".)

Ok. Vamos parar por aqui. Tem mais duas horas de filme. Triste, não?